domingo, 27 de setembro de 2009


Cheguei do colégio e tive a oportunidade de encontrar minha mãe em casa. Logo quando entrei, pude vê-la. Decidido, fui falar com ela. Não que durante toda esta semana que passara eu não tivesse a encontrado, mas só agora tinha tomado a devida coragem de começar um diálogo. Naquele horário ela deveria estar na creche, jamais almoçava em casa. Ela estava beirando a pia da cozinha, lavando as louças do café, o almoço ainda não estava pronto. A mesa não estava posta. Deixei minha mochila em um canto qualquer no meu quarto e resolvi ajudar a colocar os pratos e os demais utensílios. Esperei mais um pouco, sentei-me.
- Como foi a aula? – Perguntou-me sem muita preocupação.
- Foi boa... E a creche? Não abriu hoje? – Perguntei desconfiado, achando muito estranho ela estar em casa naquele horário.
- Abriu sim. Só que eu estou de folga hoje.
- Em plena terça-feira?
- Sim, estão fazendo umas reformas nas salas que eu leciono. Então as crianças foram remanejadas para outras turmas, onde eu fiquei me sentindo inútil lá. Sendo assim, aqui posso me ocupar mais, limpando a casa, fazendo o almoço, lavando as roupas, estavas com saudade disso tudo não é meu filho?
Eu nem lembrava o que era aquilo para falar a verdade. Sempre senti falta.
- Estava. Na verdade eu estou acostumado e até acho um pouco estranho. Aliás, existem outras coisas que eu estou achando muito estranhas.
Resolvi atacar. Não adiantava nada ficar enrolando. Se eu estava disposto a conversar, que fosse mais direto, afinal eu queria terminar logo com aquilo.
Ela sentou também, parecia assustada. E antes que a comida ficasse pronta, falei o que estava me angustiando há dias.
- O que tu estás achando estranho meu filho?
- Tu sabes mamãe. Aquela nossa conversa sobre teu salário, ainda penso muito naquilo.
E demonstrando-se um pouco irritada, respondeu.
- Eu não acredito que ainda estás remoendo esta história Kelvin.
- Eu sei de tudo mãe – Fui seco nas palavras.
Ela deixou o olhar raivoso, e no lugar veio um olhar nervoso.
- Tudo? Tudo o quê? – Ela sentia medo. Era visível. E eu me sentia bem. Sentia-me poderoso. De todas as vezes em que tentei conversar com minha mãe sobre isso, aquela era a primeira na qual ela não tinha saída, além de contar toda a verdade.
- Sim. Eu sei tudo. Sei que tu és prostituta. Sei que o dono da creche onde tu trabalhas é um de teus clientes. Sei que tu estás ganhando muito bem por conta disso, eu mesmo vi teu holerite não é? Mas agora também sei que não fazes horas-extras coisa nenhuma. Quer dizer, fazes horas-extras sim, mas não da forma que me fazias imaginar. – Pronto, agora cabia a ela toda explicação. Eu sentia que muita coisa ia mudar depois disso.

domingo, 20 de setembro de 2009



Passara uma semana e eu continuava com aquele silêncio dentro de mim. Sentia-me angustiado. Será que tudo aquilo valeria a pena? Às vezes eu pensava que não precisava passar por todas aquelas circunstâncias. Mas, não passar por elas seria muito pior, já que eu nunca me sentiria realizado e carregaria o mesmo peso sobre os ombros que já carregara há anos. E quanto menos tempo fosse necessário carregá-lo, melhor. Bastavam apenas alguns segundos para que eu percebesse que estava sim no caminho certo. Além de não ter conversado com minha mãe sobre o assunto, não tinha conversado com nenhuma outra pessoa, nem mesmo para um simples desabafo. Eu ia para a aula, com Susan, e lá encontrava Beny todos os dias. Tanto com ela quanto com ele, o assunto não existia. E todo aquele tempo sem nada a comentar foi importante para que eu pudesse refletir sobre tudo que havia descoberto. E a rotina não mudara. Eu e Antônia continuávamos vendendo brigadeiros, os alunos continuavam comprando, nós continuávamos lucrando e aquela atividade extra me fazia esquecer um pouco minhas tristezas. Mesmo assim não era o suficiente. Eu estava achando um tédio os estudos naquele ano. Parecia não ter nenhum professor bom e as matérias aparentavam estar muito repetitivas. Embora eu gostasse de língua portuguesa e matemática, e que elas dominavam uma grande parte das aulas perante as outras, eu estava um pouco exausto por ter de assimilá-las em certos momentos. E as demais disciplinas, eu prefiro nem comentar o que eu gostaria de mandar os professores fazerem com os exercícios delas.
Terça-feira. Antes de ir para a aula, passei em um escritório de contabilidade e deixei meu currículo. Era meu primeiro passo para uma mudança drástica de rotina. Eles diziam precisar de estagiários cursando ensino médio. Eu deixei claro no currículo que não tinha experiência alguma e se me chamassem para trabalhar lá com certeza seria para fazer qualquer coisa, coisas que não precisam de experiência como carregar alguma coisa de um lado para o outro, anotar recados, fazer o café. Seria tão bom... Poderia ser qualquer coisa para mim. Eu estava determinado a trabalhar, mas se não conseguisse esse emprego eu não entraria em depressão por causa disso. Se me escolhessem, tudo bem, ótimo. Se não, tudo bem também. Até porque eu gostava de vender os docinhos. E necessitar tanto de um emprego eu não necessitava. Embora eu levasse uma vida sem nenhuma soberba, eu nunca chegara a passar fome e sempre tive um teto para dormir. O problema é que muitas vezes eu ganhava tão pouco que ficava desmotivado. Eu precisava de mais lazer. Lazer sem dinheiro é complicado. E além de estudar eu precisava estar em outro lugar que não fosse minha casa. Eu estava precisando ocupar mais minha cabeça. Trabalhar faria me sentir melhor. Se este não desse certo, iria atrás de outro.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009


Pedi desculpas, levantei-me e fui para casa. Era demais para mim. Mais um dia eu passara chorando e parecia algo interminável.
Eu estava começando a ficar preocupado comigo. Dias e dias eu passava chorando e isto não era normal para um garoto da minha idade. Talvez fosse normal para os meninos que passassem pelo que eu estava passando ou eu era mesmo frágil demais para suportar tantos acontecimentos. O fato era que me sentia mal a cada novo amanhecer. Terminar um namoro, fazer alguém se sentir ferido devido a isso, era algo comum. Ter uma mãe diferente... Tudo isso era completamente aceitável. Meus amigos também tinham mães dos mais variados tipos. O difícil era entender por que de tantas diferenças que minha mãe poderia escolher, teria escolhido logo essa. Um caminho que parecia tão errado. E eu não conseguia imaginar a minha convivência com ela a partir daquele momento, em que eu sabia de tudo e que toda vez que ela saísse de casa sem dizer nada estaria indo ao encontro de um cara qualquer, se prostituir, fazer sexo com um homem que não lhe dava o menor valor. Embora eu soubesse que ela tinha apenas um cliente, nada me garantia que isso fosse assim para sempre e em algum momento ela voltaria a ser uma prostituta como todas as outras são. Inclusive, enfrentar as beiras de calçadas onde todos a poderiam ver e mais cedo ou mais tarde uma dessas pessoas virem até mim, comentarem comigo no colégio ou na rua mesmo. Comentários maldosos que jamais alguém gostaria ouvir de sua mãe, e o pior, concordar com o que ouvira e baixar a cabeça, ficando triste e deprimido. Se eu pensasse dessa forma eu não conseguiria mais dormir e chegaria um momento em que eu faria algo impensado. Então mudei de postura e retomei o meu pensamento, tentando observar um lado bom naquela história toda. Foi muito difícil, mas consegui e percebi que não era tão ruim ter uma mãe que oferece o seu corpo a homens em troca de dinheiro. Primeiro que se pagavam pelo corpo dela, no mínimo uma mãe interessante eu tinha. Segundo que se ela optara por aquele serviço, fora por vontade própria e se realmente não a satisfizesse deixaria imediatamente de fazer o que faz. Eu não conhecia muito este ramo, apenas imaginava. E resolvi apoiá-la. Comecei a me por no lugar dela. Comecei a pensar, se fosse eu? Se eu que tivesse escolhido fazer o que ela faz? Eu contaria? Como eu contaria? Como eu me sentiria? Da mesma forma que eu gostaria que minha mãe me apoiasse quando soubesse que sou homossexual, eu precisava também apoiá-la e entendê-la, senão eu não poderia exigir nada mais tarde. Não que eu estivesse resolvendo apoiá-la com a intenção de que ela me aceitasse também como sou, mas que se ela tinha um problema e escondia de mim apenas por medo, estava eu também fazendo o mesmo. E na realidade, nem ela e nem eu estávamos fazendo nada de errado, apenas sendo o que estávamos determinados a ser. Eu, sem escolha. Ela, sem muita escolha. Pensei como seria difícil para minha mãe imaginar que alguma amiga dela comentasse em uma roda de fofocas que seu filho estava aos beijos com outro garoto, e que aquilo era um absurdo. Ela certamente me imaginaria fazendo sexo com outro rapaz e o pior, não podendo ter filhos se sangue com ele. Coisas que as mães geralmente devem pensar. Da mesma forma que eu pensara dela sobre a segunda profissão na qual escolhera ter, ela também certamente pensaria muitas coisas ruins sobre o fato de eu ser um garoto diferente dos que ela costumava ver. Ela também era uma mãe diferente das que eu costumava ver. E ser diferente não significa ser anormal, muito menos ser algo ruim. Ambos poderíamos viver felizes assim. Estar feliz era o que bastava e finalmente eu conseguira pensar com mais positivismo a partir daquele momento. E digo uma coisa, minha vida não poderia ser melhor e eu só tinha a agradecer.

terça-feira, 1 de setembro de 2009


Eu confesso que fiquei chocado com tudo o que tinha ouvido, mas era de se esperar, estava muito óbvio que o segredo no qual minha mãe guardava era esse. Eu fiquei ainda meio confuso mesmo com todas as explicações que tia Vânia havia me fornecido. Eu precisava saber quem era esse homem rico possessivo que estava pagando pelos serviços de minha mãe. Como pude por tanto tempo saber que mamãe trabalhava lá e não ter se quer a curiosidade de conhecer seus patrões? Esse tipo de coisa nunca me interessou tanto, mas agora o que eu mais queria era saber quem era aquele cara. Será que eu já tinha o visto por aí? Será que ele é um conhecido meu e por isso minha mãe nunca quis me contar? Na verdade, minhas suspeitas acabavam chegando a outro ponto, quando pensava na vida desse moço que quis estranhamente pagar a alguém para ter prazer, quando se pode com dinheiro, já que isso não lhe faltava, ter as mulheres que desejasse. Provavelmente era um homem que tinha muito a esconder. Um homem que tinha família. De certo era casado, tinha filhos e quando todos estavam distraídos e longe dele, fazia o que mamãe fazia comigo. Algo escondido, que jamais revelaria à família, pois nunca entenderiam, o que o forçava a mentir mais e mais a eles. Quando descobrissem ficariam horrorizados feito eu. E talvez pensariam da mesma forma, imaginando se essa moça que o pai de família paga para ter relações com ele tem um marido, um filho, uma casa para sustentar. Sim, ela tinha tudo isso. O marido havia algum tempo que tinha partido, mas o filho, o filho refletia e ficava triste a cada dia, pensava que a vida dele era injusta, quando na verdade não era não. Ele só não estava vendo o lado bom das coisas. Para que tanto estresse se muitos problemas são resolvidos tão facilmente? E este problema se resolveria como qualquer outro. Bastava apenas um bom diálogo. E eu nem se quer percebi que com todo aquele turbilhão ficaria muito mais fácil eu revelar à minha mãe sobre mim. Sobre meus casos com garotos. Sobre o meu não gostar de garotas. Ela se sentiria obrigada a aceitar, sendo que eu aceitaria essa bomba que vinha de dentro da vida dela até mim. Colocando na balança meu problema seria bem menor. Se é que eu tinha um problema...