sábado, 31 de janeiro de 2009


Fui para o meu quarto. Liguei o ventilador, estava muito quente. Deitei. Fiquei olhando para o teto um bom tempo. Estava escuro, a cortina balançava. Pensei em tudo que havia ocorrido naquele dia. Foi um ótimo dia, um dia de conquistas. Consegui perder um pouco do meu medo e criei mais confiança em mim. Pensei na conversa que acabara de ter com Beny. Sentia-me feliz. Lembro-me de que antes de dormir, Beny foi até o meu quarto. Meu coração bateu forte. Ele queria apenas pedir um ventilador. Eu pedi desculpas por não ter oferecido antes e expliquei que tinha me distraído. Ele rio. Peguei um ventilador que estava guardado no meu guarda-roupa e entreguei a ele. Ele agradeceu e se foi com passos leves. Depois que ouvi a porta do quarto de hóspedes se fechar, percebi que eu tinha perdido uma grande chance. Talvez ele tivesse ido até meu quarto para que eu oferecesse lugar para ele dormir, pois ali havia ventilador, lá não. Ele certamente não conseguiria dormir sem ventilador. Se eu dissesse que não tinha outro ventilador ele seria obrigado a dormir comigo e dividiríamos o mesmo ar fresco. Por outro lado, seria muito oferecimento da minha parte. Mesmo assim me arrependi profundamente. Pensei mais um pouco. Nem tudo estava perdido. Resolvi ir até o quarto de Beny e dizer que meu ventilador havia parado de funcionar e que eu consequentemente não conseguiria dormir. Era uma grande ideia, mas mesmo assim acabei não indo. Mesmo que Beny fosse dormir no meu quarto ele não iria querer conversar mais. Estava tarde e ele estava cansado. Ele iria apenas dormir e não seria na mesma cama que eu. Se bem que dormir com ele era uma das coisas que eu menos pensava. Eu gostaria mesmo é de conversar, conhecê-lo mais. Desisti daquilo. Fechei os olhos. Passei a pensar em Susan. Susan não estava sendo justa comigo. Ela precisava me contar tudo sobre minha mãe. Eu estava começando a enlouquecer, precisando de uma explicação. Ela era a única pessoa que podia me ajudar e não estava me ajudando. Ela me ajudaria se soubesse que desejo o namorado dela? Não era realmente namorado, mas o garoto que ela desejava também. No fundo, pelo que ela me conhecia, já sabia que eu desejava Beny. Essa situação me deixava mal. Eu não queria sentir o que sentia por Beny, mas infelizmente eu não podia controlar.
Onze e meia, acordei com um pedaço do sol entrando pela minha janela. Um espaço pequeno no canto da cortina. O dia estava simplesmente maravilhoso. Bocejei e me espreguicei bastante. Não queria sair dali, estava com preguiça. Feriado, mamãe em casa, cheiro do almoço e uma conversa alta.
- Conversa alta? – Sussurrei pulando da cama.
Sai do meu quarto e fui ver quem estava conversando. Logicamente era mamãe e Beny. Aproximei-me da cozinha onde eles estavam e achei aquela cena tão linda que não queria interromper. Beny sentado na mesa olhando minha mãe fazendo comida enquanto comia um bolo de cenoura sei lá de quando com uma vontade inigualável como se aquele bolo fosse o melhor que já comera. Ele me viu chegando, não consegui me esconder.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009


- Susan, posso dormir aqui?
- Pode. E você também Beny, irá dormir aqui conosco.
- Eu acho que vou dormir na sala, será melhor. Sua mãe não vai gostar. – Responde Beny meio sem jeito.
Nesse instante chegam tia Gilda e mamãe na porta do quarto.
- Como vocês irão fazer? Só tem a cama da Susan. – Perguntou mamãe.
- Bem tia Vânia, eu vou dormir na minha cama. Eles podem dormir no chão. Não temos colchão sobrando, mas temos bastantes cobertores. – Responde Susan.
- Beny não vai dormir aqui junto com você. – Retruca tia Gilda.
- Mãe...!
- Sim, filha. Tem vários lugares da casa que ele pode dormir, não precisa ser aqui.
Minha mãe interrompeu e trouxe uma solução que até hoje não acredito que tenha surgido naquele momento.
- Então... Vamos dormir lá em casa. Assim cada um dorme em sua cama, sem preocupação, sem estresse e além do mais temos um quarto de hóspedes. Ele é pequeno, mas Beny pode dormir lá, se sentirá mais a vontade.
- Tudo bem! – Responde Beny olhando para mim.
Eu não olhei para Susan naquele momento, mas tenho certeza de que ela tenha ficado brava. Era a primeira vez que eu me aproximaria de Beny sem Susan estar perto. Fomos. Abrimos a casa, acendemos as velas e quando eu estava arrumando a cama do Beny, a luz voltou. Não soubemos o motivo daquela falta. Depois, mamãe foi para a cama. Eu demorei um pouco mais no quarto de Beny para podermos conversar. Era minha chance.
- Beny...
- Sim!
- Tu amas Susan?
- Bem... Amar eu não amo... Mas estou gostando dela.
- E tu achas que ela te ama?
Ele ficou pensativo. Olhou nos meus olhos.
- Eu não posso saber se ela me ama, mas sei que ela é muito querida comigo.
- Então, tu gostas dela.... – Sussurrei e ele ouviu.
- Gosto. Disso eu não tenho dúvida.
- Eu também gosto de ti Beny.
- Como assim?
- Gosto de ti e te admiro. Tu pareces ser uma boa pessoa.
- Que nada! Obrigado, mas você nem me conhece direito.
- Mas quero conhecer.
- Sim, eu adoraria te conhecer melhor também, mas agora precisamos dormir. A gente conversa melhor daqui para frente.
- Tudo bem... Tu queres que eu durma aqui contigo? Assim, tu não te sentirás sozinho e nós podemos conversar um pouco até o sono nos pegar de vez.
- Não... Eu não vou me sentir bem... Durma na cama você também. Você merece e eu não tenho medo de dormir sozinho.
- Certo... Tu que sabes... Boa noite!
- Boa noite!
Aquele tinha sido o meu primeiro passo. Gostei do jeito como ele falou comigo. Talvez ele estivesse me evitando um pouco por não me conhecer muito bem. Com o tempo eu mudaria isso.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009


Depois daquele troca-troca de presentes, fiquei um pouco triste porque percebi que Beny não me abraçara como abraçou Susan. Depois, aconteceu algo inesperado. Todas as luzes da casa apagaram-se. Susan gritou. Também levei um susto, mas não gritei. Tia Gilda nos tranquilizou e acendeu algumas velas. Eram quase duas horas da manhã. Nós iríamos todos dormir na casa da tia Gilda. Era praticamente ao lado na nossa casa, mas havia dois quartos, então caberíamos nós cinco ali. Sem luz, dormir era a única coisa que podíamos fazer. Fui à varanda respirar um pouco de ar puro. A estrada estava escura, muito escura. O som da noite fazia-me refletir um pouco e imaginar coisas. Som que se resumia basicamente em ruídos de grilos e outros animais. Eu gostava e necessitava disso. O silêncio e a temperatura perfeita para relaxar. Minha reflexão traria bons resultados, me ajudaria a tomar as melhores decisões. Um novo ano estava tão próximo e todos diziam que devemos fazer do novo ano melhor que o anterior. Meu novo ano começaria bem, a princípio. Eu estipulei algumas metas e segui-las-ia. Quanto ao meu Beny eu pensava se ainda valia a pena arriscar, perder a amizade que tinha com Susan e tentar, talvez sem sucesso, tê-lo para mim. Não era obsessão. Era apenas uma simples tentativa, caso não desse certo, tudo bem, eu seguiria minha vida como sempre segui sem ele.
A varanda da casa da tia Gilda sempre foi assim. Um sofá verde para descansar e uma rede pendurada na parede com ambas as pontas no mesmo gancho, nunca usada, quem sabe o sofá fosse melhor. Havia também um antigo tanque de cimento cheio de água. Se faltasse água também, teríamos socorro. Eu gostava mais daquela varanda do que a varanda da nossa casa. Ali eu me sentia bem. Senti sensação de liberdade. Liberdade para pensar, como se eu nunca pudesse pensar livremente antes. Beny entrou na varanda. Ele veio me procurar pois eu havia saído sem avisar. Quase não me viu. Viu apenas minha sombra. Culpa da lua e das estrelas. Eu não estava fazendo nada, apenas pensando mesmo, em pé, sem se mover.
- Vamos entrar? É perigoso aqui.
Não ouvi. Culpa da minha distração. Então, ele tocou em meus ombros quebrando meu silêncio.
- Desculpa Beny... O que tu disseste?
Ele riu.
- Eu convidei você para entrar porque é perigoso aqui fora.
Eu não achava perigoso, apenas sentia um pouco de medo, mas por causa do escuro. Como as luzes dos postes também estavam apagadas, a escuridão era ainda pior. Realmente todo o bairro estava sem luz. Na travessa Maria Auxiliadora, onde morávamos, alguns moradores reclamavam, mas eu não me incomodava com isso. Tia Gilda caprichou, pôs velas na sala, na cozinha, nos quartos e até no banheiro. Susan ficou no seu quarto deitada na cama olhando para o teto. Resolvi aceitar o convite de Beny.
- Eu preciso dormir. Espero que todos façam silêncio. – Disse para Beny, que concordou e contou que esperava o mesmo porque estava cansado.
Entramos. Beny trancou a porta. Não parei em nenhum cômodo da casa, fui direto ao quarto de Susan. Não sei se ela gostou, mas quando entrei, desejou-me boa noite e desejei o mesmo para ela.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009


Depois entreguei o presente da minha mãe e ela entregou o meu. Todos felizes. Susan presenteou Beny. Beny presenteou Susan. Acabaram-se os presentes. Eu não esperava isso. Apenas eu havia pensado em todos. Susan não me dera presente nem tia Gilda. Mamãe não dera presente à Susan nem a tia Gilda. Beny não me dera presente também... Não fiquei triste. Senti orgulho de mim. Entreguei o presente de tia Gilda e ela ficou extremamente feliz. Depois entreguei para Susan e ela amou o par de brincos. Estava na hora de entregar o presente ao Beny. Todos sabiam que aquele pacote era dele, pois só para ele eu ainda não tinha entregado. Ele ficou me olhando desconfiado. Parecia não acreditar.
- É para mim? – Perguntou-me Beny com vergonha.
- Sim, é para ti. Não esqueci ninguém.
- Obrigado! Estou realmente surpreso. Obrigado mesmo!
E abriu cuidadosamente para não estragar o pacote. Quando viu o presente, abriu um sorriso verdadeiro. Mostrou-se ainda mais surpreso do que estava.
- Que camisa bonita. Você acertou meu gosto. – Comentou Beny que ainda não tinha visto a bermuda.
Quando percebeu que o pacote ainda estava cheio, puxou rapidamente a bermuda e colocou a mão na boca sem conseguir esconder o espanto.
- Não acredito, eu estava pensando em comprar uma bermuda igual a esta. Agora já não penso mais. Obrigado! Obrigado de verdade. Adorei.
Confesso que quase chorei por vê-lo assim radiante de felicidade. Susan também estava feliz. Feliz por ver Beny feliz como eu. Mas quando me olhava, Susan ficava um pouco séria. Ela não tinha gostado muito da minha idéia. Ela notou que Beny tinha gostado mais do meu presente do que o relógio, dado por ela.
No colégio eu vendia brigadeiros. Com o lucro das minhas vendas pude comprar todos esses presentes. Eu não ganhava tanto. Lucrava uns quinze reais por dia. Eu, assim como minha mãe, escondia quanto ganhava. Mamãe nem imaginava que eu vendia brigadeiros. Eu não contava para não ter que ajudar nas despesas da casa. Mamãe seria capaz de me deixar sem dinheiro algum se soubesse. Comecei a investir mais em mim. Comprei presentes para muitos e me presenteei também. Senti-me feliz. Minha mãe achou estranha aquela atitude. Tenho certeza que ela ficou pensando de onde eu havia tirado tanto dinheiro. Senti-me bem. Estava pagando com a mesma moeda. De fato, não iria contar. Mesmo que para isso eu também precisasse chorar.

No dia vinte e quatro de novembro, quando nos preparávamos para o natal, eu me surpreendi. Susan veio até mim e me contou que Beny passaria o natal na casa dela. Perguntei se os pais dele tinham permitido e ela respondeu que sim. Era minha chance. Beny passaria o natal perto de mim também. Fiquei contente. Conclui que nós passaríamos o natal todos juntos. Mamãe, tia Gilda, Susan, Beny e eu, ao redor da ceia, olhando a árvore a piscar, comendo, bebendo, rindo, refletindo, se abraçando, se beijando e de repente lembrei. E os presentes? Eu já havia comprado presentes para minha mãe, tia Gilda e para Susan, mas para o Beny ainda não. E nem daria tempo. Pensei em alguma solução. Não seria tão mau assim esquecer-se de presentear alguém que mal conheço. Por outro lado seria mau dar presentes para todos e excluir Beny. Ele receberia presentes de Susan apenas. Enquanto eu previa receber presentes de Susan, mamãe e tia Gilda. Três presentes para mim. Apenas um ao Beny. Eu precisava fazer alguma coisa para mudar esse quadro. Resolvi ir até o centro comprar algo. Ainda tinha tempo. Eu tinha duas horas para isso. Chegando ao centro da cidade fui correndo para uma loja de roupas muito conhecida. Olhei bastante e escolhi. Acho que foi o melhor presente que comprei. Uma camisa linda e uma bermuda da moda. Escolhi também um papel de presentes inovador, que chamasse bem a atenção. Fechei com um laço dourado, enfiei na sacola e fui embora. Estava me sentindo bem. Sentia um alívio. Susan talvez não gostasse, mas eu o presentearia sim. E daria um forte abraço, mesmo que ele achasse estranho. Se ele não me presenteasse, não teria problema. Minha felicidade estava em saber que ele agora podia me ter no seu coração.
Vinte e duas horas. O natal se aproximava. Todos nós na casa da tia Gilda. A mesa não era muito grande, mas todos couberam muito bem nela. Mesa retangular. De um lado, eu e Susan, do outro, mamãe e tia Gilda. Em uma das pontas estava Beny bem quieto. A outra ponta estava vazia. Eu imaginava que papai estava ali. Fernando, pai de Susan, não a assumiu e sumiu. Susan não o conhecia. Tia Gilda não se importava onde ele estava. Susan também não. Todos comiam. Susan falava besteira e todos riam. Depois todos voltavam a comer. E o silencia vinha. Eu olhava Beny e sorria. Beny olhava para Susan e sorria. Todos sorriam. Natal combina com sorrisos. Até que chegou o grande momento daquela noite. Era quase meia-noite e estávamos na sala vendo televisão. Cada um pegou os presentes que havia comprado e percebi que eu era quem segurava o número maior de presentes. Todos ficaram surpresos comigo. E começou o troca-troca.
- Este presente vai para minha filha linda e maravilhosa. – disse tia Gilda entregando o presente a Susan.
- E este vai para a melhor mãe do mundo. – respondeu Susan ainda mais carinhosa.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009


Em uma de nossas conversas, perguntei à Susan, quando a sós:
- Por que tu me contaste tudo aquilo?
- Sobre sua mãe?
- Sim... Eu fiquei pensando. Algum motivo te levou a me contar isso. E outra pergunta: como tu descobriste isso?
- Olha... Minha mãe conhece muito bem a sua. Tudo que acontece com uma, a outra sabe, e vice-versa. Minha mãe me contou algumas coisas que você não gostaria de ouvir. Então, eu também não vou contar. Para isso, pergunte à sua mãe.
- Mas eu já perguntei Susan. Ela não quis me dizer. Disse que eu não tenho idade para entender ainda. Mas se tu entendeste e tens a mesma idade que eu, eu também devo entender. Aliás, eu não creio que exista algum segredo sobre minha mãe que eu não possa entender.
- Sim, então ela mentiu para você de novo. Você pode entender muito bem, mas ela deve estar com medo porque você sabendo de tudo vai sentir ódio dela. E não pense que te contei isso tudo para causar desentendimentos entre você e ela. Eu só estou tentando abrir os seus olhos. Vocês vivem em uma situação de pobreza que não precisam viver. Eu sei que dinheiro não trás e nunca vai trazer felicidade, mas jogá-lo fora é demais.
- Como assim? Então quer dizer que minha mãe está jogando dinheiro fora? Tu sabes de tudo. Tu vais ter que me contar Susan. Por favor.
- Não, eu não posso. Infelizmente, eu não posso.
- Tu és minha amiga?
- Sou... Você sabe que sou. Embora eu tenha feito tudo isso, te ignorado, te escondendo do Beny, eu peço desculpas. Sempre doía fazer isso, mas realmente eu precisava. Beny me conquistou e ele parecia não gostar de pessoas pobres. Aos poucos fui percebendo que ele não se importa com a renda como os pais dele. Então fiquei arrependida.
- Ele não se preocupa em conviver com pessoas pobres? Você tem certeza? Os pais dele são tão...
- Sim, os pais são, mas ele não. Nem um pouco. Beny é perfeito. E eu estou gostando muito de conhecê-lo. Você vai gostar de conhecê-lo também. Perfeição você também tem.
E abraçamo-nos. Eu chorei, ela também. Agora sim nossa amizade voltara a florescer. Eu até pensava em desistir de Beny, mas não podia. Eu simplesmente não conseguia.