quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009


Para mim era muito difícil mentir. No fundo, ela sabia que eu gostava dele. Susan era ciumenta demais. Susan sabia meu segredo. Segredo meu para todos os outros que eu conhecia, sem incluí-la. Aconteceu quando ela e Tia Gilda vieram morar aqui. Sentados em algumas pedras próximas à praça central da cidade, conversávamos sobre antigas paixões. Eu tentei esconder e consegui por algum tempo, mas aos poucos ela percebeu. Susan sempre foi muito esperta e antenada.
- E qual o nome da sua primeira namorada?
Eu nunca tinha namorado antes. Então eu não precisaria mentir.
- Eu nunca namorei...
Talvez fosse a pior resposta, pois traria novas perguntas após esta. Podia ser também a melhor resposta, pois me pouparia de inventar detalhes.
- Como não? Você é tão gentil, bonito...
Adorei os elogios. Sorte que ela era minha prima. Mesmo que eu fosse gentil e bonito, poderia não ter me apaixonado ainda. Resolvi não retrucar.
- Sou novo ainda para isso.
Realmente eu era novo para namorar, mas todos com a mesma idade já estavam namorando. Era moda. Ela mudou o foco da conversa.
- Prefere loira ou morena?
- Tanto faz.
- O que você acha de mim?
- Tu és bonita.
Simples assim. Contudo que minhas respostas naquele momento eram pura reação.
- Você vai ver... Vou fazer de tudo para encontrar uma garota perfeita, ideal para você namorar.
- Não precisa...
Imaginei que ela queria ser prestativa. Esnobando a ajuda eu estaria me entregando, mas ela não notou isso.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009


- Sim. Ele precisa perceber que já somos crescidos. Já temos idade para namorar e não é mais necessário fingir que somos apenas amigos. Dessa forma conseguirei até mesmo mais liberdade. Minha mãe perceberá que estou me tornando uma mulher, poderei sair, por exemplo.
Aquela resposta sem sentido me deixou ainda mais preocupado. Agora eu podia ter certeza que Susan escondia de mim algo muito importante. Não questionei mais sobre isso porque sabia que ela poderia fugir ainda mais e inventar novas mentiras. Mudei de assunto.
- E sobre minha mãe. Não me contarás nada mesmo?
- De novo? Eu não quero que você continue insistindo nisso. Aliás, agora sou eu que vou te questionar. O que está acontecendo com você e Beny?
- Como assim? Não está acontecendo nada. Estamos nos conhecendo melhor, nos tornando amigos. Beny parece ser uma pessoa tão boa.
- Eu conheço você Kelvin. Você não quer apenas a amizade dele.
- O que tu estás querendo dizer com isso?
- Quero que você saiba que Beny será meu. Apenas meu.
- Eu não acredito que estás com ciúme. Eu não quero ficar com Beny. E mesmo que eu quisesse, tu achas que ele iria me querer?
- Não... Claro que não!
- Então... Qual o problema de sermos amigos?
Pensou na burrice que falara.
- É verdade. Eu estou sendo obsessiva. – Respondeu Susan, ainda nervosa.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009


- Susan eu sei que eu às vezes te incomodo, mas gostaria que tu me contasses o que passa em tua cabeça.
- Você não me incomoda. Eu gosto de você. Ninguém se preocupa comigo assim como você, por que eu iria reclamar?
Susan sempre com perguntas que me deixavam sem saída. Eu poderia respondê-la que muitas pessoas gostam de se isolar e que preferem não compartilhar seus problemas com os outros, mas dizendo isso eu estaria me classificando como uma pessoa qualquer que apareceu na vida dela a partir de sua adolescência e não como o melhor amigo, o ombro onde ela pode chorar muitas vezes e quantas ainda fosse precisar. Eu poderia encontrar diversas pessoas para ter uma amizade e sei que poucas delas estariam dispostas a me ouvir toda vez que precisasse, pois eu não precisava pouco, ao contrário, adorava conversar. Para mim, o diálogo é essencial e Susan sabia que eu pensava assim. Até mesmo ela me disse certa vez que pensava da mesma maneira, mas se contradisse com a reação inesperada por todos na tarde passada. Então, se ela não quis levar um papo sério com ele, quem sabe quisesse comigo.
- Então me conte o que tu sentes pelo Beny.
Ela ficou pensativa. A mesma pergunta já feita por mim ao Beny anteriormente traria resposta ao sentimento dele por ela.
- Eu quero namorar ele. Quero mostrar a ele que podemos ser felizes juntos. Ele se recusa a tentar. Eu já havia tocado nesse assunto antes, mas ele se fez de desentendido. Você acha que a minha atitude hoje a tarde foi errada? Eu precisava arriscar.
- Eu não acho errada, mas achei um pouco estranha. Parecia que não havia comunicação entre vocês há séculos. Tu pegaste Beny de surpresa.
- Fiz aquilo porque assim é mais fácil, mais rápido. Todos já iriam entender o que rolava conosco. Eu tenho que mostrar ao Beny que entre nós pode ter algo maior. Ele pensa que nós iremos enganar a todos por quanto tempo?
- Enganar?
Fiquei sem entender mais nada. Por que Susan e Beny estariam querendo enganar alguém? O que havia de mal dois colegas de escola que se conhecem e se apaixonam começarem a namorar? Olhei para Susan e dessa vez não fiz pergunta alguma. Meu olhar já pedia uma explicação. Susan ficou tensa.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009


- Mãe... Tu já pensaste sobre aquilo?
- Não sei o que estás falando.
- Eu falo daquela resposta que tu ficaste me devendo outro dia.
- Eu não fiquei devendo resposta alguma.
- Tudo bem... Se tu não queres me contar, eu descobrirei mesmo assim. E será pior, podes ter certeza.
- Não te preocupes. Quando souberes, seja por mim ou por outra pessoa, estarás preparado.
- Eu não entendo mãe, não entendo...
Senti-me muito mal. Mamãe não confiava em mim. Fui para o meu quarto. Deitei. Chorei. Tentei dormi, mas não consegui. Confesso que cochilei um pouco, mas logo após acordava. Voltei a me perguntar por que eu merecia tanta omissão. Mamãe e Susan escondiam algo de mim e eu precisava descobrir. Não podia imaginar qual omissão teria mais peso, qual me chocaria mais. Foi quando percebi que o dia já estava chegando ao fim e resolvi ir até a casa de Susan. Levantei-me, fui ao banheiro, lavei o rosto, respirei fundo e sai. Alguns passos, creio que aproximadamente trinta, foram suficientes para que eu chegasse lá. Eu precisava conversar um pouco mais e Susan depois de ter corrido para casa daquele jeito também precisava, ou não.
Susan estava deitada na cama de seu quarto, assim como eu minutos antes. Quem me levou até lá foi tia Gilda que por sua vez estava séria, mas demonstrava que não havia conversado com Susan ainda pela expressão desinformada que seu rosto trazia. Da porta, perguntei se podíamos conversar. Susan respondeu que sim e eu me aproximei. Sentei-me à beira da cama. Percebi que Susan estava realmente triste. Eu a conhecia muito bem. Não era falsidade. Olhando de perto se podia perceber que Susan, assim como mamãe, escondia de mim alguma coisa importante. Eu notava a diferença. Mamãe demonstrava medo, Susan demonstrava dúvida. Uma ou outra teria de se abrir comigo. Eu estava ficando louco. Então, tentei fazer com que algumas palavras saíssem de sua boca.

domingo, 8 de fevereiro de 2009


Beny não me convidou para entrar. Talvez ele tivesse percebido que eu estava querendo falar de mim. Beny era esperto e eu tinha certeza que ele entendera o que lhe foi dito. Pude vê-lo abrir o portão, fechar e depois entrar com passos longos. Beny não era apenas uma boa pessoa. Beny era bonito. Seus cabelos castanhos bem escuros quase confundiam com o preto. Sua pele não muito clara me deixava com ainda mais desejos. Seus olhos brilhantes e sua boca carnuda. Um sorriso inigualável. No rosto uma expressão tímida. O corpo em forma, um tanto magro, mas perfeito para mim. Seu modo de andar me fascinava. Seu modo de se vestir sempre me agradava. Suas mãos macias e unhas bem cortadas. Pernas peludas. Peito nu. Tudo que pude ver. O detalhe da mão pude sentir na entrega de presentes da noite anterior. O detalhe do peito pude ver graças ao costume que Beny tinha de andar sem camisa, assim como pude ver o detalhe na perna sempre que ele andava de bermuda ou com shorts de times de futebol. Tudo para mim era lindo nele. Se ele não era, estava provado que o amor é realmente cego. Falando em beleza, Beny morava em uma casa maravilhosa. Um quintal rico em verde, gigantesco para que pudesse abrigar a enorme casa. Três pessoas não precisavam de uma casa daquele tamanho. Então, lembrei que minha casa também era grande, porém valia muito menos. Permaneci por dois minutos parado, olhava para não esquecer o lugar.
Voltei para casa um pouco triste. Eu gostaria de conhecer a casa de Beny como ele conheceu a minha. Embora nós tivéssemos ido da minha casa até a dele a pé, nossas casas eram longe uma da outra. Eu fazia o percurso em trinta minutos. Com Beny e com toda nossa conversa, com passos lentos e pequenos, demoramos um pouco mais. Eu colhi uma flor em um quintal e guardei. Guardei-a para minha mãe. Eu não perdia esse romântico costume. Caminhei bastante rápido dessa vez. Chegando em casa, vi mamãe no sofá sentada, quase deitada. Ela já havia lavado a louça, limpado o chão. Mamãe sempre foi muito organizada e perfeccionista. Nossa casa sempre estava bem limpa. Às vezes eu a ajudava, mas era um pouco raro. Sentei-me em outro sofá próximo ao que ela estava. Entreguei-lhe a bela flor, ela ficou contente. Colocou no cabelo. Rimos. Assistimos um dos programas de relacionamentos entre casais favoritos dela. Eu também gostava. O programa terminou. Foi quando resolvi voltar no assunto tratado entre nós dois anteriormente.

sábado, 7 de fevereiro de 2009


Susan olhou com raiva para Beny e saiu correndo para casa. Susan parecia estar fazendo um teatro. Aquela atitude não era comum nela. Susan já havia se apaixonado por outros garotos antes, mas nunca se comportou de tal maneira. Ela estava louca. Beny aceitou o namoro. Se aquilo acontecesse comigo, eu estaria numa repleta felicidade, seria a pessoa mais feliz desse mundo. Então, comecei a achar as coisas um pouco estranhas. Mesmo que a forma como Beny aceitou o namoro tenha sido um pouco ríspida, jamais Susan deveria agir da forma que agiu. Susan sempre teve medo de perdê-lo. Desde o início eu sentia que ela tinha ciúme dele comigo. Susan nunca deixou de ser minha amiga. Ela apenas quis afastá-lo de mim. Essa reação na cozinha não era normal. Beny poderia até desistir da resposta depois daquela cena. Susan pegou Beny de surpresa. Por outro lado, ele já deveria esperar por isso, pois eles estavam juntos e ele não tomava uma decisão. Não perguntava o que ela havia perguntado. Susan apenas tomou uma atitude. A reação dele não foi de quem realmente ama. Eu sabia e senti isso. Todos ficaram quietos. Trocavam-se olhares. Todas ficaram com dúvidas. Eu não sabia quem defender. Talvez não existisse culpados. Ambos tiveram reações inesperadas. Pelo menos para mim.
Beny pediu desculpa por toda discussão e disse que era hora de ir para casa. Eu retruquei dizendo que era cedo ainda e aquela briga não tinha o impedido de continuar ali. Disse também que ele seria sempre bem-vindo à nossa casa. Ele agradeceu, mas mesmo assim resolveu ir embora. Eu pedi para que pudesse acompanhá-lo até sua casa. Ele respondeu que não havia problema algum. E fomos. Expliquei para mamãe que voltaria logo. No caminho ele estava silencioso. Beny era silencioso. Às vezes ele falava bastante, mas eu não sabia especificar em quais momentos exatos ele mudava. Eu achava que fosse quando Susan estava por perto. Enganei-me.
- Tu sabes por que Susan reagiu assim?
Ele andava e chutava algumas pedras que estavam soltas na estrada.
- Você sabe como são as mulheres...
- Como assim?
- Susan disse que queria ficar comigo, mas nunca me falou nada que namoraríamos.
- Sim, mas tu não esperavas que isso fosse acontecer Beny? Se vocês estavam se conhecendo é natural que um namoro venha à tona. Isso acontece geralmente quando se ama. Por isso te perguntei se tu a amas.
- E eu te respondi Kelvin.
- E qual tua intenção com Susan? Tu não pensavas em namorá-la?
- Não. Eu não estou certo se ela realmente é a mulher da minha vida.
- Mas Beny para namorar não é necessário tu sentires que é a pessoa da tua vida. Isso tu vais percebendo com o tempo. Vocês se conhecem há algum tempo. Chegou a hora de tomarem uma decisão.
- Pare de me pressionar!
- Não estou te pressionando. Tu não gostas dela? Por que não tentas um relacionamento sério? Tua reação não foi legal lá em casa. Tu já deverias esperar esse tipo de pedido, ou melhor, deverias ter feito esse pedido a ela antes.
- O que você quer? Só porque resolvemos ser amigos você acha que está no direito de se meter na minha vida? – Beny estava furioso. Parecia que eu havia pisado no calo dele. Eu precisava ir mais além.
- Eu quero te ajudar. Susan é minha melhor amiga, esqueceste?
- Kelvin assim você não está me ajudando. Você está me deixando mais nervoso. Você está do lado dela eu sei. Vou ser sincero, Susan é tudo para mim, eu preciso dela.
- Tu precisas dela para quê? Tu precisas do beijo dela? Se não a amas e não pretendes namorá-la não há motivos que te prendam a ela. Ou tu achas que ela ficaria contigo para sempre desse modo que estavam?
- Eu preciso de tempo, apenas isso. Preciso pensar o que vou fazer. Estou em um beco sem saída. Estou confuso. – Beny começou a chorar, percebi que realmente tinha algo muito estranho na relação dos dois.
- Calma Beny... Tu não estás com ela porque foste obrigado. Tu a escolheste. Se tu a escolheste é porque queres algo com ela. Se não quiseres, podes terminar não é?
- E você quer que isso aconteça! O que foi? Você está a fim da Susan?
Surpreendi-me com tal questão.
- Não Beny... Eu não estou a fim da Susan...
- Então por que você está me falando essas coisas?
- Estou tentando abrir os seus olhos. Se tu não estás se sentindo bem com ela, não a amas, tens direito a procurar outra pessoa. Alguém ainda pode te fazer muito mais feliz do que ela fará.
- Você só pode estar maluco... Mas foi bom te conhecer. – Enxugou as lágrimas. Ele não gostaria que os pais percebessem. - Essa é a minha casa. Vou entrar. A gente se vê por aí.

domingo, 1 de fevereiro de 2009


- Oi, bom dia... Dormiu mais que a cama! – Beny estava animado.
- Sim, dormi... Na verdade demorei a pegar no sono e quando peguei olha no que deu.
- Que bom... Você acordou na hora certa então porque a sua mãe está quase terminando o almoço.
- É... Eu senti o cheiro lá da minha cama. Parece estar bom.
- Se está bom eu não sei, mas se estiver ruim vocês me falem – Mamãe disse preocupada.
- Imagina dona Vânia. É impossível uma comida com um cheiro tão bom estar com o gosto ruim. – Beny extremamente simpático.
E não estava mesmo. A comida estava uma delícia. Frango assado com farofa, maionese e arroz temperado. Mamãe havia caprichado. Comemos, o ambiente estava silencioso.
- Mãe, a tia e a Susan não quiseram comer conosco?
- Eu não sei, parece que elas não acordaram ainda. Quando acordarem, vou chamá-las. Só não podemos ficar esperando porque a comida vai esfriar. Pelo jeito elas hoje vão acordar depois das duas.
Mamãe havia acertado. Duas e meia apareceram mãe e filha. Susan estava com cara de sono ainda e tia Gilda estava bem acordada. Pediram comida e mamãe riu. Eu e Beny também rimos. Tínhamos guardado um pouco para elas, e comeram com vontade como se jamais tivessem visto comida antes. Entre uma garfada e outra, Susan interrompia o silêncio.
- Beny você dormiu bem?
- Dormi. Adivinha quem fez minha cama?
Susan me olhou seria. Eu respondi sim com a cabeça.
- Por quê? Beny já sabe fazer a cama muito bem sozinho.
- Eu sei. - Respondi – Eu só queria que Beny fosse bem recebido, afinal agora somos amigos.
- Que bom saber que meu futuro namorado está sendo bem tratado aqui.
Senti um diferente tom de voz quando ela disse isto. Ela falou isto justo para indiretamente eu perceber que Beny era dela e que eu não tinha chance. Olhei para o Beny.
- Namorado Susan?
- Sim Beny, você quer namorar comigo?
Todos olharam para Susan assustados. Não era comum meninas pediram seus parceiros em namoro. Beny não tinha saída. Ele só poderia responder que sim.
- Susan... Eu queria fazer essa pergunta para você.
- E por que nunca fez?
- Esse tipo de pergunta se faz a sós geralmente.
- E quantas vezes nós já tínhamos ficado a sós?
- Algumas.
- Então Beny...
- Então... Se não tenho saída, eu aceito.
- O quê? Você aceitou só porque não tinha saída? Você não me quer também?
- Susan não é isso... Você entendeu errado.
- Não Beny! Eu entendi o que você me disse.
- Susan, por favor... – Retrucou tia Gilda.
- Mãe, você acha justo isso que Beny está fazendo comigo?
- Filha, Beny tem livre escolha. Ele aceitou o pedido, só expressou-se mal.