terça-feira, 30 de dezembro de 2008


- Claro que não! Que absurdo! Eu nunca ganhei bem assim. Esse valor que tu estás vendo nesse mísero contracheque é resultado de muito trabalho que venho fazendo. É também resultado de aumentos que nos últimos meses venho recebendo.
- Não... Por favor... Tu não vais me fazer acreditar nisso. Mãe, tu trabalhas na mesma creche que a mãe da Claudia, minha colega. A mãe dela, Rose, é coordenadora da creche e acreditas que até quanto a mãe dela ganha eu já fiquei sabendo? Sei quanto a mãe da minha colega ganha e não sabia quanto minha própria mãe ganhava... É demais para mim. Como coordenadora da creche ela ganha mil e duzentos reais, tu queres que eu acredite que ganhas todo esse valor como professora? Sim... Ela ganha os mesmos aumentos que tu. Sim... Ela faz horas-extras assim como tu. Agora me conte mãe, é a última vez que pergunto. De onde vem todo esse dinheiro?
Ela respirou fundo, mostrou-se aflita e me olhou nos olhos. Tão fundo. Ela não sentia raiva. Ela sentia medo. Eu toquei suas mãos. Mostrei que a perdoaria qualquer fosse a resposta. Ela percebeu.
- Bem, lembra quando eu te disse que a mamãe faria tudo para melhorar nossa situação?
- Sim, lembro. Papai não havia falecido ainda. – Olhei para baixo.
- Então... Eu pensei que não seria assim, por isso resolvi... – Mamãe começou a chorar profundamente sem conseguir terminar a frase.
Comecei a chorar junto, mas sem saber o motivo. Sabia que ela sofria demais. Sabia que ela talvez tivesse feito algo muito errado. Interrompi seu choro.
- Fala mãe! Por favor...
Ela enxugou as lágrimas com a mão, mas não todas porque eram muitas.
- Desculpe, mas não vou poder te contar isso... Tu não tens idade para entender isso... Com o tempo eu juro que te contarei.
Eu não insisti. Quem sabe realmente eu não entenderia mesmo. Eu tinha dezesseis anos agora. O que alguém com dezesseis anos não entenderia? Eu não encontrava essa resposta.

Um comentário:

Wise-Boy disse...

Nossa, tudo tudo de bom o texto...