quarta-feira, 31 de dezembro de 2008


Permaneci me perguntando por muito tempo. Às vezes, eu até esquecia os meus outros problemas. Primeiro, perco minha melhor amiga. Depois, perco a confiança na minha própria mãe. Minha melhor amiga me abriu os olhos. Isso me fez pensar. Que motivos teriam levado Susan a me contar isso? Se Susan estivesse realmente de mal comigo, ela esconderia isso de mim. Por outro lado, Susan talvez quisesse me ver de mal com mamãe, quisesse me ver infeliz. Se Susan não me contasse nada, eu nada saberia, logo não ficaria triste. Quem sabe até me reconciliaria com Susan e ficaria feliz. Mas, até mesmo que isso tudo acontecesse, que tudo tivesse sido diferente, eu ainda assim sentiria tristeza. Minha felicidade não era apenas estar ao lado de mamãe e minha melhor amiga. Minha felicidade se completaria com uma pessoa ao meu lado: Beny. Neste caso, eu viveria completamente feliz.
Susan e Beny não podiam ficar mais juntos. Agora era a minha vez de entrar em cena. Quando os ‘pombinhos’ descobriram que menti com relação a doença da professora e do reagendamento da prova, ficaram decepcionados e foram tirar satisfação comigo. Foi incrível. Cheguei em casa e os dois estavam lá, parados, sentados me esperando. Perguntei o que havia acontecido porque fazia muito tempo que não os tinha em minha casa. Eles falaram coisas não muito agradáveis e eu tentava esconder o riso. Eles notaram meu riso e queriam me bater. Quem sabe teria sido melhor para que eu não tivesse usado de tanta maldade para separá-los. Maldade que comparada à que eles faziam comigo, equiparava-se. Eu disse para eles que não sossegaria enquanto os dois não reprovassem na escola. Eles queriam me matar. Disseram que fariam o mesmo comigo. Respondi que eu me aprovaria de qualquer jeito, já não havia mais como rodar. Eles morderam-se. Então, entramos em um acordo. Susan voltaria a falar comigo caso eu deixasse de prejudicá-los na escola. Fizemos este acordo no dia do meu aniversário, dois de novembro. E o acordo foi cumprido de ambos os lados. Susan voltou a falar comigo, não como antes, mas voltou. Eu desisti da idéia de reprová-los e eles não reprovaram. Para eles estava tudo bem. Para mim, não. Eu jamais descansaria enquanto não os visse separados. O lado bom é que eles me garantiram não estarem namorando. Eu gostava de Beny, queria Beny para mim. Faltava aproximação. E este era meu próximo objetivo.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008


- Claro que não! Que absurdo! Eu nunca ganhei bem assim. Esse valor que tu estás vendo nesse mísero contracheque é resultado de muito trabalho que venho fazendo. É também resultado de aumentos que nos últimos meses venho recebendo.
- Não... Por favor... Tu não vais me fazer acreditar nisso. Mãe, tu trabalhas na mesma creche que a mãe da Claudia, minha colega. A mãe dela, Rose, é coordenadora da creche e acreditas que até quanto a mãe dela ganha eu já fiquei sabendo? Sei quanto a mãe da minha colega ganha e não sabia quanto minha própria mãe ganhava... É demais para mim. Como coordenadora da creche ela ganha mil e duzentos reais, tu queres que eu acredite que ganhas todo esse valor como professora? Sim... Ela ganha os mesmos aumentos que tu. Sim... Ela faz horas-extras assim como tu. Agora me conte mãe, é a última vez que pergunto. De onde vem todo esse dinheiro?
Ela respirou fundo, mostrou-se aflita e me olhou nos olhos. Tão fundo. Ela não sentia raiva. Ela sentia medo. Eu toquei suas mãos. Mostrei que a perdoaria qualquer fosse a resposta. Ela percebeu.
- Bem, lembra quando eu te disse que a mamãe faria tudo para melhorar nossa situação?
- Sim, lembro. Papai não havia falecido ainda. – Olhei para baixo.
- Então... Eu pensei que não seria assim, por isso resolvi... – Mamãe começou a chorar profundamente sem conseguir terminar a frase.
Comecei a chorar junto, mas sem saber o motivo. Sabia que ela sofria demais. Sabia que ela talvez tivesse feito algo muito errado. Interrompi seu choro.
- Fala mãe! Por favor...
Ela enxugou as lágrimas com a mão, mas não todas porque eram muitas.
- Desculpe, mas não vou poder te contar isso... Tu não tens idade para entender isso... Com o tempo eu juro que te contarei.
Eu não insisti. Quem sabe realmente eu não entenderia mesmo. Eu tinha dezesseis anos agora. O que alguém com dezesseis anos não entenderia? Eu não encontrava essa resposta.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008


- Por que me olhas desse jeito? - perguntou-me ela meio desconfiada.
- Mãe, nós precisamos ter uma conversa séria.
- Sim, sobre o que é? - sentando-se no sofá ao meu lado e ainda mais desconfiada.
- Mãe, eu posso ver teu contracheque?
- Que contracheque?
- Qualquer um, mãe. Eu quero saber quanto tu ganhas por mês.
- Por que isso agora?
- Mãe, por favor, mostre-me.
O que me deixou ainda mais sem forças foi ver que minha mãe se recusava a me mostrar seu holerite. Ela abriu a bolsa, procurou bastante e achou. Pegou-o nas mãos e me disse que este era do mês passado. Estendi as mãos e ela me entregou. Olhei com cuidado e percebi que realmente Susan falara a verdade. Minha mãe ganhava muito bem. Aquele papel a poucos centímetros de distância em minhas próprias mãos. Eu não podia acreditar. Sempre pensei que fossemos pobres, mas com aquele valor, eu e ela poderíamos ter uma vida mais tranqüila financeiramente. Olhei novamente, pois talvez estivesse enxergando algo errado. Era realmente o que havia visto na primeira vez. Mamãe era quase rica e consequentemente eu também. Onde andaria aquele dinheiro que ela recebera? O que ela fizera com o dinheiro que em todos esses meses recebera em alto valor desde que papai nos deixou? Eu bem conhecia nossa dificuldade, nossa vida triste, nossa pobreza antepassada. De onde mamãe ganhara tão bem assim? Há quanto tempo? Papai sabia disso? Talvez ela escondesse até mesmo dele... Quantas perguntas para nenhuma resposta. Olhei para ela. Ela me olhou. Eu, nada disse. Ela, nada comentou. Eu não consigo descrever meu sentimento naquele momento. Eu estava feliz e triste ao mesmo tempo. Senti vontade de chorar, mas não sabia se de felicidade ou tristeza. Ela tomou o papel de minhas mãos.
- Pronto. Agora me diga por que isso agora?
- Por que tu escondeste isto de mim, mãe?
- Escondi o quê, meu bem?
- O teu salário. Não te faças te desentendida, mãe!
- Que tem meu salário?
- Pelo amor de Deus, mãe, não brinca comigo. Três mil reais é muito dinheiro... Como podemos viver com toda essa pobreza se moramos somente eu e tu? Esse salário é suficiente para que possamos ter uma vida tranqüila com relação às finanças. Essa tranqüilidade eu nunca vi reinar em nossa casa, mãe. Eu imaginava que tu ganhavas muito menos que isso. Tu sempre me disseste que professora ganhava pouco, não era uma profissão tão bem reconhecida pelo seu esforço e dedicação. Vivias reclamando do valor do teu salário e agora me deparo com isto? Com certeza todos os nossos gastos mensais não ultrapassam de meros oitocentos reais. O que fazes com o restante, eu posso saber?
- Tu pensas que estás falando com quem? Sou sua mãe.
- Sim... E que mãe, não é mesmo? Por que uma mãe esconderia isso de um filho ou de uma filha? Eu não digo que tu precisavas utilizar todo esse dinheiro. Não digo que tu precisavas gastar tudo isso conosco. Só me pergunto por que minha própria mãe esconde todo esse dinheiro de mim. Tu por acaso tens medo que eu vá te roubar? Desculpe-me, mas essa é a única coisa que consigo pensar no momento como resposta a todas essas minhas dúvidas.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008


- O que você está fazendo aqui?
Eu no sofá. Ela em pé, próxima à porta.
- E por que não estaria? Nós éramos amigas, esqueceste?
- Não esqueci. Mas acredito que nossa amizade já acabou. Não temos mais o que conversar.
- Não. Nossa amizade não acabou. Você quis destruí-la. Lembro-me de que tu conheceste um amigo e gradativamente foste se afastando de mim sem motivo algum.
- Claro eu estava querendo conquistá-lo, pensa que eu diria para ele que sou prima de alguém assim como você?
Fiquei sem palavras... Senti que ela queria me inferiorizar, mas questionei, pois naquele momento eu apenas imaginava as piores coisas nas quais Susan poderia estar pensando sobre mim.
- Assi... Assim como eu... Como?
- Tenho vergonha desse seu jeito estranho de falar, do teu jeito estranho de se vestir, das suas mimas e manias loucas...
- Não acredito que tu estás me dizendo isso... Por que nunca me disseste isso antes quando Beny não tinha aparecido na tua vida?
Levantei-me. Ela se sentou.
- E iria adiantar?
- Não sei... Meu jeito de falar... Nossa tu sabes que aprendi com minha mãe. Com certeza é melhor do que o modo que tu falas. Modéstia à parte eu sei que falo muito bem.
- Você fala bem demais então... Isso não é um problema, mas essas roupas que você usa, para quê? Você não vê a moda como anda? Não se importa como os outros vão olhar para você?
- Me importo – Já chorando – Tu é que nunca te importaste com essas pequenas coisas. A partir do momento que começaste a andar com Beny, é que tu ficaste assim... Eu não mereço isso. E tu sabes o quanto somos pobres... Minha mãe mal pode comprar meus materiais escolares, quem dirá minhas roupas... Eu faço o possível para andar com uma boa roupa... Aliás, isto não é motivo para se ter o fim de uma amizade.
- É um bom motivo sim... Eu agora passei a viver com pessoas diferentes, eu não posso misturar as coisas. E quanto às suas roupas, que mentira a sua! Sua mãe ganha bem... Ela não é pobre coisa nenhuma! Você nunca teve curiosidade em olhar um holerite dela, por exemplo?
Aquilo me deixou em estado de choque.
Susan recusou-se continuar conversando comigo. Eu voltei para casa e fiquei pensando naquilo. Não conseguia pensar em outra coisa. Uma pergunta nunca havia me intrigado tanto. Imaginei tantas coisas. Eu precisava tirar essa dúvida com minha mãe. Engraçado que naquele dia, mamãe demorou tanto para chegar. Esperei. Cochilei. Mais tarde, quando mamãe chegou, fui imediatamente falar com ela.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008


Fazia quatro meses que eu e Susan não conversávamos. Aquele teria sido um grande passo para que nós pudéssemos nos entender melhor. O problema é que acabei escolhendo o caminho errado. Ao invés de eu tentar fazer florir novamente nossa amizade, resolvi arriscar separando o casal. Meu plano inicial era reprovar Susan na escola. Como os ‘pombinhos’ sempre andavam juntos, se ela reprovasse, ele reprovaria também. A diferença é que Susan não continuaria estudando no mesmo lugar se reprovasse, pois tia Gilda jamais aceitaria tal decepção. Já com o Beny seria diferente, pois seus pais mal se importavam se ele passara ou não... Eles apenas importavam-se com o dinheiro e nada mais. Desde que o filho estivesse na melhor escola da cidade, tudo estaria bom para eles. Nesse ponto até Susan foi influenciada. Susan nunca foi rica. De uns tempos até o atual, ela vinha mudando sua aparência, seu modo de falar e até mesmo suas companhias, e já não quero mais lembrar disso. Beny era um garoto rico. Talvez se interessasse apenas por garotas ricas também. Eu não acreditava que os pais de Beny não implicavam com Susan por ela não ser o que realmente gostaria. Olhando para Susan eu podia vê-la rica com todas as suas mudanças. Era uma pobre disfarçada de rica. Eu continuava como sempre fui: pobre. Não muito, mas o suficiente para não chegar aos pés dos ‘pombinhos’. Talvez fosse este o motivo no qual Susan ignorava-me tanto. Quem sabe ela não admitia mais andar com pessoas abaixo do seu patamar. Patamar que ela achava estar. Eu era bolsista na escola, jamais poderia reprovar. Susan se reprovasse, com certeza não poderia mais andar com Beny. Talvez pudesse sim... Mas não como estavam andando ultimamente. Eu esperava que os dois não pudessem se ver mais e assim desistissem dessa idéia maluca de se conhecer antes de namorar. Parecia-me algo feito sem vontade. Susan certamente não se sentia bem passando por toda aquela farsa. Beny certamente não se atrairia tanto por uma garota que mente ser o que não é e que descaradamente mostra querer apenas de destacar ao lado dele. Foi quando resolvi esperar Susan em casa depois do shopping. Aproveitei que minha tia, assim como minha mãe, chegaria às dezenove horas e teria um bom tempo para conversar com Susan. Eu tinha a chave da casa dela. Bastava entrar e esperar. Quando chegasse, iríamos conversar como sempre conversávamos antes, porém desta vez para nos entender ou para eu entender o que passava em sua mente. Aquela conversa rápida na estrada não tinha sido suficiente. Eu precisava conversar mais. A sós. Meu plano ainda não estava finalizado. Eu sabia que ela ficaria chateada comigo, então eu tinha duas coisas a fazer: separá-los e conseguir que ela me perdoasse mais tarde, tarefa que não seria muito fácil. Eu já estava me preparando para isso. Ela demorou mais que minha previsão. Quando chegou, levou um susto.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008


Enquanto voltava da escola meio-dia aproximadamente, avistei um casal de mãos dadas e nem os reconheci. Chegando mais perto pude perceber. Eram os dois: Susan e Beny. Eu me senti na obrigação de falar algo, de quebrar aquele gelo que nos separava. Como podia uma garota ser minha melhor amiga e de repente desaparecer, começar a namorar, não me contar nada e como se não bastasse virar a cara quando me via? Eu não podia aceitar aquela situação. Será que alguém contou a ela algo ruim sobre mim? Será que Beny era contra nossa amizade? Ninguém muda assim de uma hora para outra. Bem... Pensando bem, muitos mudam sim. Aproximei-me deles, respirei fundo e demonstrei felicidade com um grande sorriso amarelo.
- Não sabia que vocês estavam namorando...
- E nós não estamos, só estamos nos conhecendo! – diz Susan.
Olhei nos olhos de Beny para poder sentir se o que Susan dissera era verdade. Ele confirmou que sim com a cabeça. Eu não podia ficar em silêncio.
- Legal! Felicidades para vocês dois.
- Obrigada!
- Vocês estão ‘ficando’ então?
- Sim, estamos.
- Vocês terão prova hoje?
- Sim, com a Maristela... Nem estudamos...
- Com a Maristela? Mas ela está doente...
- Sério?
- Sério! Eu tinha aula com ela hoje, mas um outro professor a substituiu. E a prova foi adiada.
- Nossa... Nem consigo acreditar. Então, nós nem precisamos ir. Beny, o que você acha?
- Para mim, é indiferente.
- Então, vamos ao shopping, eu ainda não fui ver aquela blusinha que estava na promoção.
E os dois se despediram de mim. Depois seguiram de mãos atadas novamente. Eu fiquei alguns segundos pensando e olhando para lugar nenhum. Depois olhei de novo para eles, já mais distantes, para me certificar que realmente tinham ido ao shopping. E foram. Meu plano estava dando certo.

domingo, 30 de novembro de 2008


Logo após eu ter perdido meu pai, tia Gilda foi morar nos fundos da nossa casa. Nossa casa tinha um bom terreno, daria para alojar até mais famílias, mas só a tia Gilda era o suficiente. Junto com minha tia veio também minha prima, filha dela. A partir daí, pude conviver mais com minha prima que eu mal conhecia. Elas moravam em Palhoça e resolveram ficar um tempo conosco, mas esse tempo acabou se prolongando bastante e elas não resolveram mais voltar. Destilândia segura as pessoas, é uma cidade aconchegante e todos são bem recebidos, com exceção nós. Com o tempo, as pessoas não se imaginam longe dali e isso aconteceu exatamente com tia Gilda e sua filha. Tia Gilda é mãe de Susan e Susan era a melhor amiga de Beny, o garoto mais fofo da escola, pelo menos pra mim. Nós estávamos na oitava série, os três, e cada um em uma sala diferente. Mamãe e Tia Gilda sempre me faziam estudar de manhã, enquanto Susan estudava à tarde. Então eu ficava a tarde toda limpando a casa e Susan dormia até tarde todos os dias e não fazia nada. Eu sempre limpava a casa com o mesmo carinho que minha mãe ensinara enquanto Susan era uma preguiçosa e eu confesso que eu a invejava nesse ponto. Eu achava tão chato arrumar a casa, mas em compensação eu não podia vê-la suja, então surgia meu carinho pela limpeza. Beny sempre estudou a tarde também e quando começou a estudar na sala da Susan eles não saíam mais de perto um do outro. Pareciam amigos de infância. Susan me deixou de lado... Eu e Susan, desde que nos conhecemos, éramos uma só pessoa, era minha amiga para o que desse e viesse. Segredos, novidades, tudo! Nós nos entendíamos apenas por olhares. Os olhares dela que não foram mais a minha procura. Mesmo morando tão perto, Susan era capaz de me ignorar, pois parecia estar ficando cega por um simples amigo que acabava de conhecer. Mas eu me enganei. Eles não eram somente amigos.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008


Eu já não me importava mais com todos esses transtornos que aconteciam desde a minha infância. Eu tinha quinze anos de idade quando pude saber o que era morar em uma casa própria. Tenho tanto orgulho em dizer isso que friso diversas vezes e pode parecer repetitivo. Para mim, todos os problemas acabariam a partir dali e por parte eles acabaram, pois nem cobranças antigas recebemos mais. Porém, ocorreram novos problemas depois que fomos morar em Destilândia. Problemas que eu jamais imaginaria que pudessem ser piores aos que nossa família sofria ao longo desse tempo. Eu me culpava por ter provocado-os, mas comecei a perceber aos poucos que minha tia planejara tudo e eu era apenas a vítima. Talvez eu não precisasse me chamar dessa forma, mas considero-me assim.
No primeiro dia da minha nova vida, acordei com preguiça, mas levantei rápido em busca do café da manhã.
- Esqueci de por os copos na mesa. Podes pegar ali embaixo, por favor. Se quiseres, tua caneca está aqui no escorredor de louças – disse-me mamãe tão doce.
Mamãe sempre foi doce comigo. Meu pai era mais rude. Lembro-me bem de um dia que eu estava em cima de um pé de goiaba, enquanto meu pai me chamava para tomar banho, isso já era noite. Eu não ouvi o chamado dele. Ele se aproximou e chamou mais alto. Eu fingi que não tinha ouvido e continuei ali em silêncio. Quando ele me viu ali perto sem responder nada, disse que iria me bater. Eu fiquei com medo, mas o desafiei mesmo assim não saindo lá de cima. Para minha surpresa, meu pai subiu na árvore e me alcançou rapidamente. Eu nunca podia imaginar que ele faria isso. Nunca havia visto um adulto subindo em árvore. O restante desse episódio acho que nem preciso contar, mas posso resumir que apanhei bastante, chorei e realmente aprendi a lição. Sem contar as milhares de palavras que tive de ouvir, a bronca, a lição de moral, e por ai adiante... Enquanto minha mãe dizia que ele exagerava e deveria ser menos agressivo comigo. Hoje em dia percebo que ele foi pouco agressivo, pois eu era sapeca demais.

terça-feira, 25 de novembro de 2008


Eu nasci em Florianópolis. De lá tenho poucas lembranças, já que era tão criança e com pouco tempo de lá saí junto com minha mãe Lara e meu pai Daltro. Nós vivíamos de aluguel e por falta de pagamento fomos despejados. Passamos a morar em São José e a novela ocorreu novamente. Em Palhoça também, tudo se repetiu, mas morei lá boa parte de minha vida na qual me recordo bastante... E por fim, Destilândia, onde ficamos por um tempo ainda maior. Incrível como meus pais eram encontrados em todo lugar onde moravam. Nós recebíamos cobranças diversas devido ao não pagamento do aluguel de todas as ex-residências. Eu acredito que seja pelo fato de meu pai ter um carrinho simples e nunca ter mudado, assim mantendo também a mesma placa. Eu nunca entendi muito bem, mas creio que seja por isso. A partir daí, os vizinhos começaram a unir-se contra nós achando que éramos todos pilantras e que não poderíamos morar naquela cidade tão pequena e democrática onde, pela excelente administração, permitia-se ver justiça e honestidade em toda parte. Mas da mesma forma que havia justiça, havia também pessoas que falavam coisas sem saber. Uma vez eu andava na rua quando uma garota que eu mal conhecia perguntou: “o seu Barriga não expulsou vocês de lá ainda?”. Comentários como estes me deixavam triste, mas eu fazia de conta que não tinha ouvido e seguia.
Até que alguém, com uma proposta significativamente boa, apareceu oferecendo uma casa em bom estado. Quando eu digo significativamente boa não estou exagerando porque a casa praticamente foi dada. O senhor que nela morava, precisava urgentemente de dinheiro para cuidar de uma doença na qual ele mesmo sofria e foi morar com os filhos. Esta casa ficava muito perto da nossa. Também em Destilândia, localizava-se a aproximadamente três quadras.
Mudamo-nos no momento certo. Aquele lugar já não satisfazia mais. Sair, morar em um local que fosse próprio era vontade antiga. A vizinhança não acreditava em tal decisão e as fofocas espalhavam-se rapidamente pelas estradas e ruelas da cidade. Muitos pensavam que havíamos sido expulsos por falta de pagamento novamente, outros, que teríamos encontrado algum terreno com um bom espaço para invasão. O melhor de tudo é que esses pensamentos foram todos precipitados e nada disso foi verdade. Tínhamos mesmo uma nova casa, de nossa propriedade e a partir daquele instante eu observava que nossa vida iria mudar. E mudou.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008



“Pare de me perseguir. Eu já disse tudo que precisava dizer e espero sinceramente seu entendimento em relação ao fim do nosso namoro que determinamos juntos, ou não? Pare de insistir em algo que não terá mais futuro feliz, pare de achar que sua vida acabou, pare de ser criança com suas atitudes e perceba que você nunca foi fraco e não será fraco jamais. Eu sei que é difícil para você já que você me conta diariamente todos os seus sentimentos por mim e diz que não quer me perder de jeito algum... Mas, veja bem... Vale a pena? Você vai ficar do lado de alguém que não te quer mais, que já se interessa por outra pessoa, que te despreza, que não te dá mais carinho? Por favor, entenda... Sinceramente, eu preciso te dizer que não consigo terminar com você pessoalmente. Faz quase um ano que venho tentando, mas não dá. Sempre que eu começo dizendo que não dá mais você me comove... Você chora... Eu não posso sentir pena de você. Para estar com você, eu preciso sentir amor, nada menor que isso. E se você diz que me ama, vai me entender e vai querer me ver feliz... Não quero que você seja uma pessoa perdedora, portanto não perca para sua tristeza, não deixe ela te derrubar. Do fundo do meu coração, quero te ver feliz. Você vai ser muito mais feliz longe de mim. Eu também quero ser feliz... Portanto, chega tudo bem? Não aceito mais argumentos...”.
- Sim... E daí?
- E daí? Eu quero morrer e você pouco se importa com essa situação?
- Beny, quem sempre esteve ao seu lado?
- Como assim?
- Como assim? Quando puderes me responder quem sabe eu possa se importar mais com teus problemas.
Dei as costas e segui em direção ao meu quarto.
- Foi você! Você que esteve ao meu lado desde o início. Eu sei, era isso que você queria ouvir.
- Então, abra o olho! Já te disse o que fazer, não confias em mim?
- Confio... Confio muito. Eu juro que estou tentando, mas você não imagina o quanto é difícil para mim.
- Estás tentando Beny? Que bom, ouvindo isso percebo que não estás tão bêbado assim e já posso dormir.
Fechei a porta do meu quarto e deitei. Só não dormi como havia dito.
Ele bateu na porta pela primeira vez. Eu, nada respondi. Assim, ele insistiu e bateu mais uma vez. Respirei fundo.
- O que mais tu queres?
- Você está usando o ventilador?
- Não! Por quê?
- Está tão quente, preciso dele e o meu...
- O que tu fizeste com o ventilador do teu...? Aquele barulho todo era... Não acredito Beny!
- Sim, mas foi porque eu estava com raiva, já passou!
- Então o teu calor também vai passar. Vou precisar do ventilador também.
- Então será que você poderia sair daí e pelo menos a louça?
- Nossa, é verdade, deixei a mesa toda suja. Sim, vou lavar.
Por incrível que pareça, Beny me fez rir depois de tudo aquilo. E aquilo bastou para ele esquecer o acontecido. Restava saber se ele continuaria assim pela manhã, já recuperado...

quinta-feira, 20 de novembro de 2008


Eu lembro muito bem. Sentado na cadeira em frente ao computador, dormia debruçado sobre os próprios braços, cruzados, marcados pela pressão que os óculos deviam estar fazendo. Não o chamei. Não adiantaria. Bem... Talvez adiantasse, mas não quis me envolver naquele momento. A lâmpada do quarto estava ligada e ligado também estava o ventilador. Apaguei a luz e deixei a carta sobre a cômoda sem abri-la. Fui até a cozinha preparar algo para comer porque sem dormir até aquele horário e desde meio-dia sem nada no estômago era o que eu mais precisava fazer. Macarrão instantâneo de novo. Três minutos após a fervura e pronto. Um suco para completar. Silêncio. Apenas o barulho do garfo. Sim, apenas garfo, pois faca nem usei, apenas deixei esquecida no prato. E o som do garfo no prato... Não irei desprezar o barulho dos meus goles. E assim, segui até ver o prato vazio novamente e agora não tinha mais fome. De repente observei que uma luz havia aparecido ali na sala e percebi que aquela luz vinha do quarto. Pensei que ele estava acordado e tudo se resolveria, mas sem que eu esperasse um barulho extremamente forte surgia lá de dentro e me apavorei. Agarrei-me na toalha de mesa e assim fiquei por um tempo, tentando entender o que acontecera. Ele gritava e dizia que aquilo não podia estar acontecendo com ele. Eu continuava sem entender nada. Seria fúria pós-bebedeira? Não, não chegaria a tanto. Veio até mim feito um bêbado. Sim, ele estava realmente muito bêbado, jogou a carta que acabara de ler, em minha direção, esta quase caiu sobre meu prato.
- O que significa isto?
- Leia!

E assim fiz. Desci do ônibus e fui até a casa de Susan pegar a carta. Não custava nada já que era quase ao lado do meu serviço. Eu imaginava que ali dentro ela teria escrito algo muito amável, que pudesse mudar o pensamento de Beny. E antes que eu e ele nos desencontrássemos já pedi para que minha mãe o deixasse entrar quando chegasse a minha casa, nem que fosse para me esperar a noite toda. E aconteceu exatamente como eu planejava. Beny chegou a minha casa por volta das dezoito horas e minha mãe deixou-o entrar e ofereceu-lhe café... Ele recusou e foi até o computador, que era praticamente dele, tanto a máquina, quanto o quarto de hóspedes, pois quando minha mãe viajava Beny e Susan sempre passavam o fim de semana comigo e usufruíam do humilde quarto computadorizado, coisa que não tinha no meu ao lado. Depois mamãe teve que sair, viajou novamente. E me ligou logo depois para uma rápida despedida.
Meu dia foi cansativo. Meu patrão pediu que eu trabalhasse apenas no turno da tarde, como sempre. E durante a manhã, aproveitei para adiantar algumas aulas de idiomas. Saindo do cursinho, almocei. Como meu esforço durante o turno não foi suficiente, fiquei até tarde, cumpri horas extras e deixei a empresa por volta de meia-noite. Meu dia foi bom, resolvi muitos pepinos que teria de enfrentar durante a semana e consegui adiantar algumas tarefas. Chegando em casa , notei um silêncio, mas minha mãe já havia me avisado que Beny me aguardava aflito.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008


Só que naquela segunda-feira tinha algo muito diferente nele e eu desconfiava o que era. Falando no telefone desesperado, saiu do ponto de ônibus e dessa vez nem sorriu para mim, nem me viu. Entrou em casa e saiu tão rápido com o carro do pai, que provavelmente não lhe deu autorização para isso. Tentei aproveitar um pouco da situação para pedir-lhe uma carona, porém fui infeliz pois ele continuou não me vendo. Então, de dentro do ônibus liguei para Susan.
- Susan, vi teu namorado quase agora aos prantos saindo em alta velocidade com o carro do Seu Thomaz. Tu sabes o que aconteceu?
- Sei, o motivo desse drama todo foi porque terminamos. Ele me ligou hoje bem cedo, como eu estava dormindo não atendi e retornei a ligação depois. Ele perguntou se eu já havia mudado de idéia e respondi que não, e que nem quero mudar. Demorei até demais para tomar essa decisão. É algo simples. Ele faz mais do que é.
- Mas Susan, como tu podes ser assim tão fria? Tu já sentiste alguma coisa por ele?
- Sim, já o amei, odiei...
- E agora o desprezas? Achas que ele merece?
- Não sei se ele merece... Mas dessa forma será melhor, pelo menos não terá mais ilusões... Já pedi para ele conversar contigo hoje à noite. Ele sempre ouve você, e ele precisará de ti.
- Tudo bem, mas Susan... Quando ligaste hoje, ele já esperava uma resposta tua. Ele queria saber se tu mudaste de idéia. Vocês terminaram ontem?
- Não. Eu sugeri o fim do namoro. Ele disse que eu estava nervosa, pediu que eu pensasse e desse uma resposta hoje. Ele jurava que não era verdade. Que tolo!
- Por isso ele estava daquele jeito. Mas eu conversarei com ele sim. Hoje à noite, lá em casa.
- Passe aqui em casa antes de trabalhar. Vou te dar uma cartinha e você entrega para ele. Não quero mais falar com ele pessoalmente. Não por enquanto...

segunda-feira, 17 de novembro de 2008




Beny não queria acreditar naquilo, parecia decepcionado e ao mesmo tempo vivendo um pesadelo do qual acordaria a qualquer instante. Infelizmente aquilo tudo era real. Não sei se era tão infeliz assim para mim porque nunca fui a favor desse relacionamento e sabia que esse fim faria muito bem ao Beny. Conheço-o muito bem e muito mais que eu pudesse imaginar. Talvez eu estivesse com ciúme, mas que minha prima não o merecia isso eu tinha certeza.
Toda vez que eu saía de casa de manhã, com muita pressa e muitas vezes com expressão sonolenta, eu o encontrava, ou passando por mim, ou no ponto de ônibus. Quando passava por mim eu não entendia bem onde ele estava indo ou o que estaria fazendo, mas ao vê-lo esperando a condução me dava conta que estava indo trabalhar. Nós não conversávamos, eu só olhava aquele olhar que também me olhava. Eu não sabia o que conversar com ele. Nos finais de semana conversávamos tanto mas sempre tinha o nome da Susan no meio, isso quando ela não estava realmente no meio, deixávamos nossos "assuntos" em dia e durante a semana só restava conversar sobre nós, mas logicamente sobre nós eu não podia falar, ainda que ele não demonstrasse seu desejo...








Depois de muito tempo pensando resolvi fazê-lo, e aqui está meu mais novo blog que na verdade não é "mais novo" já que nunca tive um blog. Me sinto emocionado por poder aqui expressar meus sentimentos e mostrar minhas criações. Sempre que puder, visitem-o, não levará muito tempo e não lhes custará caro! Um abraço a todos!