domingo, 30 de agosto de 2009


- Isso não faz sentido algum... – Sussurrei.
- Por que não faz? – Perguntou tia Vânia curiosa, já que conseguiu ouvir minha voz fraca.
- Susan pediu que eu visse o holerite da minha mãe. Jogou isso na minha cara. E eu fui ver. E no holerite tinham muito mais que seiscentos reais. Se ela fosse prostituta, não ganharia esse dinheiro junto do salário da creche, ganharia por fora. Por isso eu acredito que não seja isso tia. Tu estás me escondendo alguma coisa ou tu só podes estar mentindo! E o pior: tu sabes de tudo, de toda a verdade porque se Susan me avisou isso é porque tu contaste a ela.
E sem medo de responder, com um pouco de raiva por estar sendo chamada de mentirosa, respondeu imediatamente fazendo as peças se encaixarem.
- Sim, contei tudo à Susan porque é minha filha. Sua mãe é que deveria lhe contar tudo também. Acontece que sua mãe tinha um cliente que era muito exigente. Ele queria que sua mãe se vendesse apenas para ele, não se prostituindo a mais ninguém. Algo fixo, como dizem as mulheres do ramo. E esse homem... Exigente... É o dono da creche onde sua mãe trabalha. Então ele paga mensalmente sua mãe e você notou que não é pouco. Ele é um homem rico. Muito rico. A ponto de não ser dono apenas de uma das melhores creches de Destilândia, como também de mais duas escolas particulares na capital do estado.
E percebendo que não havia mais nenhuma forma de imaginar que aquilo tudo não passava de um mal entendido, fiquei preso ao sofá como se estivesse colado ali. Ou eu aceitava as coisas, como estavam sendo mostradas com um único tapa, ou... Ou eu aceitava. Não tinha saída. E eu queria aceitar.
- Nossa... Então mamãe está envolvida com um homem rico e por isso... Sim agora tudo faz sentido... – Eu dizia ainda meio inconformado.
- Sim querido. – Disse ela aliviada por perceber que eu havia finalmente entendido tudo que ouvira.
Nem tudo. Eu ainda estava cheio de dúvidas.
- Tia! Mas por que então que nossa vida continua uma merda? Se ela ganha tão bem, e segundo a senhora, fez tudo isso para melhorar nossa vida, por que não melhorou? – Esta era sim uma grande dúvida.
- Não sei... Isto só ela poderá lhe dizer.
E logo entendi que eu precisava ter uma conversa de verdade com minha mãe. Aquela coisa de meias palavras tinha que acabar. Agora eu precisava conversar seriamente. Ela precisava aceitar um papo de mãe para filho. E eu estava seguro de que a convenceria de se abrir comigo. Só havia me esquecido de que eu também tinha muita coisa para contar. De qualquer forma, eu preferiria uma coisa de cada vez.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009


A morte do meu pai foi sim uma morte um tanto estranha. Ele estava a caminho do trabalho, jardineiro desde que o conheço por gente, e quando a notícia chegou até mim ele já não estava mais aqui conosco, mas em outra dimensão. Fiquei sabendo através da Dona Rita, minha vizinha. Quando o marido dela passou pela estrada e viu o corpo do meu pai estirado no chão, logo verificou a pulsação. Pulsava e respirava. Chamou os bombeiros que chegaram muito rápido até o local. Depois ligou para a esposa e explicou onde estava e o que tinha acontecido. No caminho ao hospital, ele se foi para sempre. Seu Salézio não entendera muito bem e por muito tempo ninguém entendeu perfeitamente. Alguns achavam que ele teria se matado, outros diziam que ele tinha sido assassinado. O fato é que foi atropelado e de qualquer forma, o motorista não quis saber de ajudar, portanto, pela atitude, para mim estava se entregando, confirmando que fizera por maldade. Se bem que mesmo que não fosse de propósito, atropelar alguém deve ser uma situação tão apavorante que no momento é natural que se fuja do local por medo de ser acusado. Ainda mais se o estado do cidadão for como o de meu pai. Dizem que ele estava muito machucado. Eu felizmente não pude vê-lo dessa forma.
- Meu pai foi atropelado. Alguém o matou, eu sei disso. E não foi sem querer. Ele andava sempre com cuidado na beira da estrada, eu sei que ele foi jogado longe... Aquela estrada nem é movimentada. Alguém planejou tudo, e ainda estava em alta velocidade, eu sei. Meu pai não seria tão fraco a ponto de se matar. E eu sei que um dia descobrirão quem foi o assassino. E ele vai pagar por todo sofrimento que me causou. Desgraçado. Ainda fugiu... Ajude-me a esquecer tudo isso tia, eu to mal. E por fazer me sentir assim, quero que apodreça na cadeia – E chorava, e gaguejava por causa dos soluços.
- Tudo bem Kelvin. Espero também. Eu apenas digo isso porque acredito na hipótese de seu pai ter descoberto tudo sobre sua mãe e tentado suicídio. Não estou a culpando. Nem afirmando coisas que não sei. Longe de mim. São apenas coisas que passam pela minha cabeça. E penso muito nisso. E acabo tendo essas suposições às vezes.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009


- Eu já imaginava – Chorando - Não acredito que isso está acontecendo... – E fiz mais uma pausa - Mas como? Desde quando? – Perguntei apavorado e exigindo que as explicações fossem mais detalhadas, menos objetivas agora.
- Calma Kelvin. Você pode estar assim pelo fato de que sua mãe não lhe tenha contado sobre isto, espero que não esteja assim pelo que ela faz.
- Pelos dois! Por ela não ter me contado e por ela ser prostitu... isso aí que tu falaste...! Ai meu Deus, eu não acredito que isto está acontecendo. Eu já imaginava - Repeti inconformado - Que droga! Conte-me mais... Anda, preciso saber! – Aquela não era a forma mais educada de se falar com uma tia. Mas eu nem parei para pensar nisso. E ela começou:
- Sua mãe começou a trabalhar com isso, quando vocês vieram morar aqui com o único objetivo de conseguir dinheiro e melhorar a vida de vocês. Sempre foram pessoas pobres e sofreram demais e eu até concordo com ela que deveria arranjar alguma forma de como se salvar dessa situação. Mas ela resolveu esconder isso de todos, com medo, sim, das reações provavelmente. Imaginou também que não fossem aceitar. Você, seu pai, ah seu pai! Ele foi traído tantas vezes e nunca soube. Mas ela não fez nada disso por mal, sempre fez para lhes proporcionar uma vida melhor. Aí eu sei que durante o dia ela ia para a creche e a noite ia se prostituir, mas não todas as noites. Algumas noites apenas e nos finais de semana. Logo depois que decidiu começar nessa vida, seu marido, ou melhor, o seu pai Kelvin, veio a falecer. E é estranho porque até hoje ninguém sabe quem foi o culpado. Eu até tenho minhas dúvidas, acredito que seu pai tenha se matado, se jogado em frente aquele veículo.
E as suas palavras saiam com tanta aspereza que me arrancavam lágrimas e me faziam sentir vontade de me matar. Só vontade. Eu nunca havia sentido aquilo. Era algo simplesmente terrível. Ela não podia falar coisas que não sabia sobre meu pai. Eu não aceitava acreditar que ele teria se matado. Ele não seria capaz de fazer isso. Então, o defendi.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009


Mesmo deixando a conversa para depois do almoço como ela havia pedido, eu perdera o apetite de qualquer jeito. Eu imaginava as piores coisas possíveis, mas nenhuma delas se encaixava com o que eu tinha visto no holerite. E terminamos de mastigar as últimas coisas, e terminamos de beber os últimos goles. Enquanto Susan ficou responsável em arrumar toda bagunça da mesa, eu e tia Vânia fomos até a sala, sentamos no sofá lado a lado. Minha tia fez questão de me olhar nos olhos e segurar minhas mãos como se eu fosse um louco que precisasse ser amarrado, embora eu acreditasse que nem mesmo loucos precisassem de amarras.
- Escuta aqui, esse segredo eu jamais revelaria se eu não achasse que fosse tão necessário para você. Mas percebo sua preocupação e lhe contarei tudo.
Meu coração disparou. Eu me sentia preparado para ouvir, mas estava me sentindo desconfortável com aquela tensão toda.
- Vou lhe contar desde o início. Você certamente, esperto como é, deve desconfiar de alguma coisa. E eu serei objetiva. Sua mãe Kelvin... Ela tem dois empregos. Um deles você já sabe, ela trabalha na creche Futuro da criança. Lá ela cuida de crianças e acredito que ela ganha cerca de seiscentos reais por mês. Certo. Tudo bem até aqui. O outro, que você desconhece, é um serviço diferente de todos os que você deve estar acostumado a ver as outras mães exercerem. – E não estava sendo nem um pouco objetiva, mas preferi não interrompê-la, antes que ela desistisse de contar. Eu imaginava o que estava por vir, mesmo assim me mantive apenas ouvinte.
Olhou-me séria.
- Sua mãe é prostituta.
O mundo parou de girar e eu fiquei imóvel junto dele. Minha reação foi a mais estranha. Olhei imediatamente para baixo, talvez por decepção, e comecei a chorar por não querer acreditar que aquilo que eu desconfiava, estava sendo confirmado com todas as letras. Eu me senti triste. Comecei a chorar. Os motivos? Não sei explicar. Minha cabeça parecia flutuar pela sala e minha mente viajou e voou tão alto que quando resolveu aterrissar talvez não tenha encontrado mais meu corpo e tenha se despedaçado pelo chão. Era um momento só meu. Como se nada e ninguém estivesse comigo ali. E foram alguns segundos apenas esse momento no qual descrevi. De qualquer forma, mesmo que a mente estivesse repousando em algum canto, nada impediu que eu abrisse minha boca para reagir e responder ao que acabara de ouvir.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009


Sentamo-nos. Comemos. Como eu esperava, a comida estava uma delícia. Daquelas que a gente precisa lamber os dedos para não perder nenhum grama. E durante a refeição ficamos calados, pois falar naquele momento era sinônimo de deixar o desfrute, acabar com todo o prazer de sentir o sabor da sua comida. De vez em quando alguém pedia para alcançar o refrigerante, ou uma vasilha que se encontrava muito distante das mãos. A mesa era grande para as duas moças. E mesmo com minha presença continuava grande demais. De qualquer forma, era interessante ter uma mesa daquele tamanho. Uma mesa que convidava involuntariamente a visita a sentar. Uma mesa que implorava por visita. Aconchegante, era um bom lugar para uma reunião de família, ou de amigos. No natal, por exemplo, pudemos ficar todos em volta reunidos e ainda caberia mais um convidado.
Foi quando no meio de todo aquele silêncio, que era raro com tia Vânia presente, resolvi entrar em alguns assuntos polêmicos.
- Tia... Preciso que tu me contes uma coisa.
Tentei falar da forma mais adequada para o momento, mesmo sabendo que aquele nem era o momento certo para abordar aquilo.
- Sim querido, o que quer que eu conte?
Pareceu tão prestativa. Eu não queria vê-la fugir da resposta. Era só o que me faltava mesmo.
- O que tu sabes sobre a mamãe? Eu pergunto várias vezes à Susan e ela se recusa a me contar. Ela me disse que tudo que soube foi através de ti.
Ela perdeu a meiguice e ficou pálida. Largou o garfo que estava em sua mão direita e respondeu seriamente olhando nos meus olhos.
- Você ainda não descobriu meu filho? Depois do almoço, por favor. Senão você perderá o apetite.
Eu não respondi. Meu silêncio evidenciou que aceitara deixar o assunto para mais tarde. Foi melhor ouvir que me contaria depois do que ouvir uma desculpa deslavada, como “não sei sobre o que você está falando meu filho” ou “eu não posso lhe falar também, sinto muito”. Eu saberia de tudo, ou quase tudo, em alguns minutos.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009


- Boa tarde tia.
Olhou-me sem largar a vasilha que estava sendo levada até a mesa. E abriu um grande sorriso.
- Boa tarde meu sobrinho. Que saudade estava de você. Estamos tão perto e tão longe ao mesmo tempo. Você não tem aparecido mais aqui.
E parou tudo que estava fazendo para me abraçar.
- É verdade. Eu estava saindo muito ultimamente.
Eu costumava esperar que a qualquer momento tia Vânia me surpreendesse com algum comentário, como sempre, mas dessa vez ela conseguiu fazer isso antes mesmo que eu pensasse qualquer coisa.
- Fiquei sabendo que você estava apaixonado. E quando estamos assim, não olhamos mais para o mundo. É normal.
Fiquei sem resposta e como precisava responder alguma coisa, respondi sem palavras, apenas com um sorriso sem graça.
- E o garoto? – Ela de novo.
- Que garoto? – Respondi.
Ela se encheu de orgulho na resposta.
- O garoto que você estava apaixonado. Vocês não devem estar mais juntos imagino, já que você está aqui em casa novamente, mas como ele está?
Dessa vez a resposta não era para ter saído novamente, mas saiu como uma bala do revólver.
- Ele está bem.
Susan apenas me olhava séria e com vontade de rir, pois eu estava com uma expressão muito confusa.
- Mamãe sabe de tudo Kelvin – Contou-me sem papas na língua.
- Eu não queria ter contado, mas ela foi tão esperta e notou praticamente tudo que estava acontecendo. Preferi não mentir. Ela adorou a novidade.
Novidade... Como se eu tivesse decidido ser gay da noite para o dia. Como se eu tivesse decidido ser o que sou. Eu nunca quis ser. Afinal, quem gostaria de viver sendo alvo de preconceitos? Mas já que era, sem ter outra opção, gostava de ser. E eu, que olhava assustado para Susan, mirei agora de novo à tia Vânia.
- Na verdade eu sempre soube querido. Vamos almoçar? – Na maior naturalidade, falou o que eu tanto temia em dizer, sem pestanejar, e seguiu a conversa sem interesse algum em debater sobre o assunto. Nesse momento, tia Vânia estava colocando o meu prato, meu copo e também meus talheres sobre a mesa. Esse almoço iria dar o que falar.

domingo, 16 de agosto de 2009


Tia Vânia era uma pessoa muito engraçada a meu ver. Eu não conseguia identificar quando ela estava falando sério ou levando tudo na brincadeira. Sua aparência também era engraçada. Devia ter seus quarenta e cinco anos, era magra, mas não magricela, era um pouco loira e seus cabelos pareciam bagunçados, quando na verdade eram assim mesmo, ou ao menos era aquele o estilo dela, o qual ela gostava. Era um tanto baixa, chegava a medir menos que eu, que me considerava baixo também com um metro e sessenta e cinco. Tia Vânia era bastante conversadeira e esperta. Falava sem parar enquanto todos ao redor apenas ouviam, exceto quando houvesse alguém tão tagarela quanto ela, começava assim a disputa por palavras. Seus olhos mantinham-se sempre atentos e a qualquer momento que eu ou outra pessoa se atrevesse a fazer o que ela não gostava, mesmo que estivesse de costas, sem poder naquela situação ver absolutamente nada, ela surpreendia ralhando e dizendo para pararmos de fazer aquilo que fazíamos de errado, segundo ela. E brincávamos comentando sem que ela pudesse ouvir, que ela tinha olhos no traseiro. Sim, havia momentos em que podíamos falar sem que ela pudesse ouvir. Já que tinha olhos no traseiro, dispensava usar os dois ouvidos para nos escutar e quando percebíamos, ela estava tão distraída que não ouvira nem se quer Susan lhe chamar a dois metros de distancia, enquanto se eu mexesse numa estátua de Pholis sobre a mesinha a quase cinco metros atrás dela, era capaz de me ver. Isso realmente não era comum em qualquer pessoa, mas nela, já estávamos até acostumados.
E fomos almoçar. Chegando lá, a mesa estava pronta, toda arrumada, com os pratos e copos organizados para duas pessoas. A comida estava sendo posta em vasilhames para que pudessem durar por mais alguns minutos em boa temperatura. O cachorrinho, o Numbi, também esperava pelo almoço, um tanto ansioso.

Susan ficou por alguns minutos ausente e depois voltou, sem Beny. Ele não era de faltar. Ele nunca faltara e eu achava pouco provável que ele não tivesse vindo aquele dia, ainda mais sendo o primeiro dia do ano. Eu conhecia Beny, sabia que não era faltaria.
- Ele faltou
- Como? Beny nunca falta. – Perguntei assustado percebendo que eu não conhecera Beny como imaginara.
- Sim. Procurei na lanchonete, não estava. Então liguei para a casa dele. Ele mesmo atendeu e disse que não estava a fim de vir hoje. Parece que andou brigando com os pais.
Estranho. Esse tipo de crise não era comum em Beny. Tudo bem, as pessoas são imprevisíveis às vezes e era natural que Beny também fosse. Podia ser porque não estava acostumado a acordar cedo. Afinal, era o primeiro ano matutino de Beny, e de Susan também. E se brigou mesmo com os pais, fiquei imaginando o que poderia ter sido. Seria certamente algo grave para fazê-lo fazer o que nunca tinha feito, gazear aula. E assisti às aulas com o pensamento longe até o fim. Pensamento em Beny. As horas pareciam demorar mais naquela manhã e as aulas foram tão improdutivas que eu deveria ter feito exatamente o mesmo que Beny. Apresentação de professores, de matérias, nada disso me importava no momento. E pensava nele, só nele.
Tocou o sinal de saída e fui embora. No caminho, logo em frente à escola, Susan chegou correndo e me chamando para que a esperasse.
- Nossa é assim que você retribui todo carinho que lhe presto diariamente? Não me esperando para voltar da aula? Já imaginou o tanto de coisas ruins pode-se acontecer com uma garota da minha idade andando sozinha neste horário?
- No máximo em assalto ou um estupro, o que acho pouquíssimo provável. Primeiro que é muito quente ao meio-dia, os bandidos devem estar descansando ou almoçando em sombra fresca. Segundo que há pessoas demais por aqui e eles não atuam em lugares assim. Então fique tranquila. Não precisas de minha companhia.
- Que horror Kelvin!
- Calma, é claro que eu estou brincando linda! Eu só não te esperei porque estavas demorando muito e particularmente eu sabia que tu virias correndo trás de mim.
- Seu abusado! Sabe que eu gosto de você e fica todo cheio de confiança.
- E tu também não me esperaste de manhã, então eu precisava me vingar.
- Está bem... Kelvin quer almoçar lá em casa hoje?
Nesse ponto eu já havia esquecido da tal indireta no recreio. Aquele convite pareceu tão amigável. Fazia tempo que não recebia um desses. Não pensei duas vezes, aceitei imediatamente. Tia Vânia cozinhava muito bem, era impossível recusar sua comida. E mamãe, provavelmente não estaria em casa, o que me forçava a ter de inventar algum prato para comer sozinho.

sábado, 15 de agosto de 2009


Segunda-feira. Levantei-me cedo. As aulas estavam começando novamente. Um ano letivo que prometia ser cansativo. Diziam que o segundo ano do ensino médio era o pior. Eu não me amedrontava nem um pouco com esses comentários, mas ao lembrar das provas, dos trabalhos que daqui a alguns dias eu estaria me dedicando a fazer, em certos momentos eu desanimava. As férias causam uma zona de conforto muito grande dentro de mim e até fazer com que a engrenagem volte a se movimentar no ritmo dos estudos, ainda passam por ela muito sono, preguiça e má vontade. Aliás, este ano prometia ser um ano ainda mais pesado porque eu decidira que procuraria um emprego sem deixar de estudar como sempre estudei. Talvez um estágio remunerado fosse uma ótima alternativa. O fato era que eu precisava, de um jeito ou de outro, trabalhar fora de casa. Ocupar a minha cabeça era uma opção importante para me fazer esquecer de meus problemas.

Primeiro dia de aula era sempre assim. Professores se apresentando e apresentando o plano de ensino. Eu estava morrendo de sono. No intervalo, quando todos os alunos mais pareciam estar sendo libertados de suas jaulas, Susan veio conversar comigo. Eu imaginei que ela fosse declamar um sermão por tudo que eu havia revelado anteriormente à ela, mas me surpreendi quando ela começou a me dizer as primeiras palavras.
- Oi Kelvin. Você viu o Beny?
Agora não estavam mais estudando na mesma turma. Podiam se encontrar apenas em momentos comuns a todos os alunos. Eu gostava disso.
- Não o vi hoje. Ele não estava na sala?
- Não... Ficamos em salas diferentes, não sei por que dividiram a turma dessa forma. – Resmungou de forma triste, porém meiga.
- Procure na lanchonete. Ele pode estar lá.
E foi. Mas antes me disse algo bem confortante.
- Se eu demorar é porque o encontrei. Então você pode ir até lá também. Ah, eu ia me esquecendo. Eu não estou chateada com você por causa do que me disse ontem. Eu entendo perfeitamente e sei que esse tipo de coisa é muito mais do que normal. Quase todo o mundo já passou por isso. É comum duas pessoas gostarem de uma outra. Só que no nosso caso, somos primos e muito amigos então acaba parecendo que é mais difícil. Mas não é. A gente só precisa esperar que o tempo irá nos dizer. Aliás, nessa história toda, acho que você não está tão mal assim.
Aquilo soou de uma forma a me deixar completamente curioso, mas antes que eu pudesse lhe perguntar o porquê, Susan me deu as costas e eu mal podia esperar que ela voltasse, sozinha, para que pudesse continuar o que não acabara.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009


Antes que Susan começasse a me agredir, reforcei a frase e a mencionei ainda mais alto.
- Eu estou completamente apaixonado pelo Beny.
Eu posso me lembrar do olhar dela de raiva. Mostrou-se muito irritada e eu não entendi o porquê. Tudo bem, ela tinha todo direito de se sentir assim, afinal fora uma resposta muito verdadeira e que ela com certeza não esperava que fosse sair de dentro de mim com tanta convicção. Mas o que eu não me conformava é que ela demonstrava estar irritada não pela situação em si, mas comigo, por eu estar sentindo o que sentia, como se eu tivesse alguma culpa por ter me apaixonado pela pessoa errada, ou certa. O fato é que ela recebera a resposta como se esta fosse uma notícia de morte de um ente querido, ou um exame final do colégio no qual ela não teria tido sucesso. E começou a me olhar, encarando, como se estivesse querendo dizer “Olha aqui rapaz, não se atreva a tentar alguma coisa com o meu namorado ou eu serei obrigada a matá-lo da pior forma que você pode imaginar”. Sorte que não falara isso, apenas pensara. Ou eu imaginara que pudesse estar pensando assim. Respirou fundo. Quebrou o silêncio.
- Eu não acredito.
Falou por impulso, porque acreditava sim e havia bastante tempo já. Talvez não acreditasse que eu tivera coragem de falar aquilo. Eu entendia perfeitamente sua reação.
- No fundo eu já sabia. – Choramingou como se quisesse que eu pedisse perdão por estar fazendo-a sofrer assim. Mas nem seu drama diante de mim, deixou-me mais frágil e resolvi terminar a conversa.
- Então é isso! Preciso ir para casa. – Precisava ir para casa chorar mais um pouco. Chorar deitado na cama era melhor do que no meio da rua.
E Susan aceitou minha despedida numa boa sem pestanejar. Parecia já ter ouvido coisas o suficiente naquele dia e também resolvera ir para casa, não comigo. Ao chegar, enquanto eu tomava água, olhando pela janela da cozinha pude vê-la chegando e passando direto, sem olhar para minha casa. Entrou no seu terreno quase ao lado do meu e fez algo que não pude ver, nem ouvir. Enquanto isso, mamãe sumira e eu, como estava acostumado, sabia que ela voltaria, se não no mesmo dia à noite, no outro pela manhã, sem explicações.

No caminho para casa, encontrei Susan, que obviamente espantou-se com meu estado. Perguntou-me o que estava acontecendo e eu respondi o mais ridículo. Disse que não era nada. Ela não se contentou com a resposta e começou a me seguir. Mostrou-se preocupada comigo e pediu para que a gente conversasse um pouco. Resolvi aceitar o convite. Afinal, eu precisava de alguém que me amparasse naquele momento. Embora Susan não fosse uma pessoa em quem eu poderia depositar todos os motivos das minhas lágrimas, ela poderia me deixar mais calmo por não me sentir tão sozinho naquele instante. Aproximamo-nos do centro da Praça Central e nos sentamos na grama. Eu de frente para ela. Depois de passar as mãos em minha cabeça, insistiu mais uma vez na mesma questão. Por que eu estava chorando? E ouvia soluços. E via lágrimas escorregarem em minhas bochechas.
- O Rafael.
Entre uma palavra e outra que eu tentava dizer. E mais choro, e mais soluços.
- Terminamos.
Desembuchei. Susan ficou surpresa. Jamais imaginara que pudéssemos nos separar porque até então parecíamos estar muito bem juntos e nosso romance, para quem via, era de novela, com direito a felizes para sempre no final. E ao mesmo tempo tal notícia a incomodava porque desconfiava dos motivos pelos quais havíamos terminado. Sabia que Beny continuava sendo desejado por mim e parecia ter medo de perdê-lo como se ele estivesse um pingo se quer a fim de ser meu também.
- Eu não acredito. Por que terminaram?
Eu precisava pensar bem antes de responder para que não acabasse falando a verdade. Não que eu fosse mentiroso, mas naquele momento era necessário, ao menos que eu quisesse perder de vez uma amizade que tempos atrás fora tão difícil de recuperar.
- Percebi que não o amo de verdade.
Eu não estava mentindo. Realmente não o amava de verdade. Tratava-se de uma simples omissão. E Susan não perguntaria justamente essa omissão.
- Você está amando outra pessoa?
Enganei-me por completo. Susan era mesmo muito curiosa e seria difícil fugir das suas perguntas. O que me restou foi responder que amava outra pessoa sim. E se ela ousasse perguntar quem eu estava amando ai sim eu mentiria.
- Sim estou.
Fui objetivo. Não queria responder as coisas antes que elas me fossem perguntadas. E já prevendo a próxima pergunta, tentei mudar de assunto.
- Estou me sentindo muito mal por isso. Rafael ficou magoado e eu não queria feri-lo. Ele não merece isso. Coitado.
Foi bom ter tentado, mas Susan não desistiu rápido e logo fez a pergunta que não queria calar.
- Você está apaixonado por quem Kelvin?
Senti um frio na espinha. Eu precisava responder algo para ela, mas eu não podia falar a verdade. Talvez pudesse sim, mas se a fizesse, o que Susan pensaria? Que eu era invejoso? Que eu me tornara um traidor? Tudo isso realmente podia passar pela sua cabeça e por um momento senti que nada daquilo que ela pudesse pensar importaria, pois meu sentimento por Beny não iria mudar e Susan desconfiava desde o início que eu sentia algo forte por ele, caso contrário não sentiria ciúmes e nem chamaria minha atenção, desejando que eu contasse o que realmente queria dele, tempos atrás. Como um flash, em minha mente surgiu uma resposta que Susan esperava atentamente para ouvi-la.
- Eu estou apaixonado por Beny.

domingo, 9 de agosto de 2009


- Eu não acredito Kelvin! – Ele ralhou convicto.
- O que foi meu lindo? – Perguntei ainda tentando ser carinhoso, mas fui infeliz.
- O que foi? Eu vi!
- O que tu viste?
- Seus olhos brilhando pelo Beny! O que é? Agora vai querer me trair com meu melhor amigo?
- Eu te trair? Não! Nunca! Tu achas que seria capaz querido? Eu te adoro...
- Esse é o problema. Você me adora. E por ele, o que você sente?
- Pelo Beny? Não sinto nada. Quero dizer, gosto dele, mas nada demais. Ele é meu amigo.
- Eu já havia ouvido você sussurrar o nome dele enquanto dormia, mas inocentemente achei que era apenas um sonho bobo que qualquer um poderia ter com qualquer pessoa. O problema é que de tanto pensar nele, você acaba sonhando e nos seus sonhos ele habita bastante.
- Tu ouviste isso? E por que nunca me contaste? Eu não lembro ter sonhado com ele. Eu juro.
- E não é apenas por isso. Os seus olhos estavam mais apaixonados hoje a tarde do que os olhos da Rose em Titanic. E como se fosse apenas hoje... Todos os dias quando você o encontra é a mesma coisa e de repente quando eu olho para você seu pensamento está longe. E eu? Eu faço de conta que você está pensando em algo bonito para me dizer, ou fazer. E finjo que você não está lembrando de nenhum momento bom que viveu com Beny, mas toda hora você gostaria que ele estivesse aqui conosco, ou melhor, com você, e imagina coisas que vocês dois poderiam fazer juntos já que você o ama tanto e percebeu que ele agora dá mole para você. Vive dando indiretas e quando isso acontece, o que você faz? Você fica ainda mais esperançoso e com muito mais medo de me dizer a verdade. Que você não me quer mais e que tudo aquilo que nós passamos juntos era pura diversão. Eu só abri as portas do seu novo mundo, te mostrei como esse mundo funciona para você mesmo criar coragem e chegar mais próximo dele, do Beny. E aos poucos vocês irem se envolvendo até que namorem, casem, adotem um filho e sejam felizes para sempre, enquanto o idiota aqui, fica sofrendo, chorando por não ter mais quem ele desejava ter e tenta procurar um outro alguém que raramente aparecerá no seu caminho como você apareceu. Francamente Kelvin. Não precisa mentir para mim. Por favor.
E percebi que ele havia sacado tudo e que era muito esperto. Não adiantava mais eu continuar bloqueando-o. Deveria deixá-lo seguir outro rumo na vida e ser feliz. Aliás, ele tinha toda razão.
- Eu não queria deixar de te ter. Tu me ensinaste tudo que há de melhor.
- Responda-me uma coisa e seja sincero.
Deu-me uma cortada bonita.
- Claro.
- Você sonha em casar?
Fiquei pensativo. Era uma decisão não muito fácil para um garoto da minha idade. Eu pouco pensava nisso.
- Sim, no futuro.
- E se fosse para você escolher alguém com quem casar agora, quem você escolheria?
Eu fiquei imóvel e não pisquei. Pensei em mentir, mas não queria iludi-lo. Ao mesmo tempo não queria magoá-lo. Mais uma vez eu sentia medo. Agora, de perdê-lo e não ter a oportunidade de ter o Beny para mim. Assim, valeria o antigo ditado. Quem muito quer nada tem. E cuspi a reposta.
- Eu casaria com Beny! Desculpa Rafael!
Ele fez uma expressão de decepção. Tentou segurar, mas não conseguiu. Ele imaginava que era apenas coisa da sua imaginação e não esperava que eu fosse responder aquilo. Mesmo que eu amasse Beny, pensou que eu mentiria para tentar algo com ele. Começou a chorar. Deixei a cafeteria. Pedi desculpas novamente. Eu chorava tanto quanto ele.

sábado, 8 de agosto de 2009


Era tudo tão bom, mas o encanto acabava quando Beny surgia. Depois de todo aquele envolvimento dentro do carro, encontramo-nos mais duas vezes. No cinema novamente. Em menos de duas semanas assistimos Respiração ofegante, mais um de terror, e por fim O casal dos sonhos, um belo romance indicado por ele para que quebrássemos o gelo dos filmes que assistimos anteriormente. O problema é que agora, em cada filme eu ficava com o pensamento longe. Eu pensava em Beny. Era difícil beijá-lo pensando em outro garoto. E quando nos despedíamos vinha a pior parte. A minha revolta, por estar vivendo aquilo. Eu me culpava, e culpava Beny. Culpava todos e só não achava uma solução. Sentia-me perdido, desorientado. Por que as coisas sempre têm de ser assim? Não era mais fácil eu me apaixonar por Rafael e ficarmos juntos para sempre? Ele parecia muito a fim de mim e demonstrava querer algo sério comigo. Enquanto eu, gostava muito dele, mas quando estava sozinho pensava naquele rapaz que já tinha dona. Dona que era minha prima, minha melhor amiga. Quando Beny aparecia, eu tremia e meu coração pulsava a todo vapor. A todo o momento, nos meus desejos mais íntimos, eu tentava pensar em Rafael para que aos poucos eu fosse deixando aquele suposto amor ao Beny de lado e começasse a me interessar realmente pelo outro. Mas fazendo isso eu percebia que estava me enganando cada vez mais e talvez enganando Rafael também. Eu não poderia continuar saindo com ele se a todo o momento não tirava Beny da cabeça. Por mais que seu beijo fosse bom, seu toque, o sexo... Enfim, o prazer carnal fosse perfeito, não era com aquele garoto que eu sonhava estar ao lado por anos. E de vez em quando ao pensar em tudo isso, toda felicidade que me cercava em festas, acabava num estalar de dedos. Eu tentava esconder e disfarçar meu sentimento, mas não conseguia. E Rafael percebia isso a cada dia. Até que finalmente aconteceu o que era previsto havia um bom tempo. Rafael cansou daquilo e ficou furioso.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009


Rafael deixou claro que desejava me penetrar. Eu disse que queria penetrá-lo também, estava louco de vontade. Ele não gostou muito da ideia. Nem eu. Percebemos que estávamos enrascados. Esse impasse acabou quebrando um pouco o clima e resolvemos nós dois nos entregarmos por completo aos desejos alheios. Rafael deitou-se de costas para mim e afirmou nunca ter feito aquilo. Eu afirmei que também nunca fizera e ele ficou ainda mais curioso. Queria me testar. Usamos lubrificante para auxiliar. Quando tentei pela primeira vez, Rafael disse que estava doendo muito e pediu para que eu fosse com mais calma e aos poucos fui aprendendo o ritmo certo para que ele pudesse suportar. Apenas no início, depois o ritmo já não tinha tanta importância. E assim seguimos. Ritmo lento, rápido. Mudamos de posição. Ele ficou de frente dessa vez. E suas pernas para o teto. Rafael pedia mais e eu queria cada vez mais também. Enquanto comia aquele rapaz mais velho, cheio de amor para dar, pensava como podia algo ser tão bom. Eu não saberia explicar exatamente o que estava sentindo, mas era algo que parecia viciar e que não dava vontade de parar enquanto não me explodisse em prazer intenso. Quanto mais eu penetrava, mais sentia o orgasmo chegar. Enquanto isso eu lambia seus mamilos, chupava seu pescoço, orelha e beijava sua boca com vontade. Ele se massageava e às vezes eu mesmo o massageava com a intenção de provocar um orgasmo junto ao meu. Quando eu não consegui mais segurar, gozei dentro dele enquanto ele gozava também com gemidos intensos e cheios de prazer. E ficamos ali, um sobre o outro como se tivéssemos participado de um triatlo e agora que havíamos vencido podíamos descansar. Rafael desistiu de me penetrar e disse que foi a melhor coisa que já havia experimentado. Fiquei curioso, mas quieto. A partir dali, faríamos isso muitas outras vezes. Levamos mais do que uma hora e por isso foi bastante cansativo. Colocamos as nossas roupas e nos recompomos rumo a casa dele. Lá, dormimos feito dois nenéns. Abraçados, a porta do quarto trancada e a coberta sobre nossos corpos e sob o ventilador de teto. Agora sim, eu aprendera como é bom o sexo, e com proteção me sentia ainda melhor.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009


Quando Rafael parou o carro ali no escuro, pensei, é agora. Dito e feito. Rafael olhou para o lado e ficou me observando sério. Eu perguntei para ele por que havia parado ali se me dissera que iríamos a sua casa. Ele me respondeu que em sua casa não poderíamos fazer barulho e ali éramos apenas eu e ele, e seríamos apenas um se quiséssemos, podendo ficar despreocupados, ninguém iria aparecer naquela noite e estávamos trancados entre quatro portas. Eu sorri e chamei-o de maluco. Ele retrucou dizendo que ele seria maluco só se fosse por mim. Bastou um comentário no momento certo para que eu caísse em seus braços com vontade. Beijamo-nos loucamente mais uma vez e agora eu que me responsabilizei em tirar a camiseta dele. Tiramos toda nossa roupa e pulamos para o banco traseiro. Lá atrás, nos tocamos, foi muito bom. Pude ver seu instrumento, tocá-lo com as mãos e com meus lábios que a cada minuto ficavam mais gulosos e desejavam todo o seu corpo. Ele me chupou todo também. Começou em minha orelha, meu pescoço. Desceu e passou a língua por todo meu peito, abdômen, até que chegou a minhas coxas e meu saco. Nunca sentira tanto tesão antes. E percebi como é bom quando alguém realiza nossos desejos e podemos retribuir. E retribui, como ele merecia. Ficamos um bom tempo assim sentindo o gosto do sexo com a boca e eu não queria que nunca terminasse.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009


Minha mãe estava acostumada com meus sumiços. Quando eu saía para dançar, nem sempre voltava cedo, isso quando eu voltava. Acabava sempre dormindo na casa de algum amigo que morasse mais próximo e no outro dia eu retornava para casa. E eu sempre avisava e com antecedência. Só que dessa vez eu não dormira na casa de nenhum amigo, dormira dentro do carro, no banco de trás, abraçado ao meu mais novo amigo colorido.
Saímos da boate aproximadamente cinco horas da manhã e como Rafael não estava pronto para dirigir devido ao álcool, resolvemos dormir ali mesmo, no carro.

A outra vez que dormi no carro com ele, estávamos em um lugar bem deserto próximo a sua casa. Tínhamos ido a uma pizzaria, comemorar o aniversário dele, vinte de fevereiro. E comemoramos apenas eu e ele, num rodízio de massas que conseguiu ser melhor que a feijoada da mamãe e a comida de domingo da vovó. Comemos bastante e depois de forrarmos o estômago, resolvemos ir para casa de Rafael assistir um filme. Com certeza existiam outras intenções e eu mesmo sabendo disso aceitei o convite. No caminho, ouvimos música na rádio, mas estava tão baixo o volume que podíamos conversar normalmente sem dificuldades para nos entender. Mas, poucas palavras pareciam quererem sair de nossas bocas aquela noite. Talvez estivéssemos cansados.
Fiquei surpreso quando ele parou o carro no meio de um terreno isolado e começou a me beijar. Tirou minha camiseta, decidido. Eu escolhi dessa vez ser guiado aos sentimentos dele, e aos meus também, porque diferentemente da primeira vez no carro, agora eu sentia vontade de tocá-lo, e não só com meus lábios, nem apenas com minhas mãos.

Lá pelas tantas, Rafael estava sem camisa e mostrava-se suado de tanto queimar calorias dançando. E eu dançava em sua frente quase me esfregando por inteiro. Minhas mãos passavam pelo seu corpo e mostravam muito desejo. De vez em quando bebíamos mais um pouco para garantir que o efeito não acabasse, como se a bebida fosse um combustível no qual a qualquer momento fizesse o corpo parar. E de forma alguma os corpos pararam, exceto em dados momentos em que decidimos nos sentar para respirar uns minutos, ou ir até o banheiro, onde quase nos empolgamos a fazer sexo ali dentro das cabines.
No banheiro podiam-se ver muitos homens e até mesmo algumas mulheres, que em certos momentos confundiam-se com travestis. Na pia vimos dois garotos no maior amasso. Um estava masturbando o outro, enquanto o outro passava as mãos nas nádegas macias do parceiro, que se encontrava logo atrás dele, muito perto a ponto de fazer seu pênis roçar em seu traseiro já à mostra. Imaginamos que podíamos fazer algo parecido, mas ficou apenas na imaginação e logo voltamos à pista, onde continuamos a dançar. Nesse momento eu me sentia cansado e mesmo assim preferi aproveitar ainda mais.
Duas horas mais tarde, Rafael sugeriu que fôssemos embora e eu nem pude recusar, pois estava me sentindo um trapo. Nunca dançara tanto em toda a vida. E seguimos em direção à saída, quando pude ver novamente o céu estrelado naquela noite de fevereiro. Dia quatorze, para ser mais preciso. Dia que eu nunca esquecerei.

terça-feira, 4 de agosto de 2009


Senti-me em um paraíso, onde não existiam regras e eu pudesse demonstrar meus sentimentos abertamente sem me preocupar com o que os outros iriam pensar, até porque todos estavam fazendo o mesmo. Todos vivendo momentos de liberdade. Essa era a causa dos belos sorrisos nos rostos de todos que estavam ali, bem arrumados, cheirosos, dançando com o corpo e com a alma.
Segurei o braço de Rafael e o levei para o meio da pista. Depois de ter tomado vodca com refrigerante de limão, tudo seria possível para mim naquela noite. Dançamos até o chão se rachar por completo. E nos beijamos a noite quase toda. Por isso digo que a roda-gigante fora um dos melhores dias de minha vida, porque sem dúvida essa noite em que fui à balada com Rafael foi a noite mais perfeita até aquele momento. De repente olhamos ao nosso redor e vimos que estávamos no centro de tudo, no ápice da boate, no queijo, na pista que subia. E ainda assim não nos envergonhamos de ser o centro das atenções. E dançamos, e dançamos...

domingo, 2 de agosto de 2009


A segunda vez que saímos juntos, eu e Rafael fomos à balada. Eu gostava de sair e dançar. Eu havia saído algumas vezes com meus amigos e nos divertimos a beça todas elas. Eu, pouco bebia. Reveillon e alguns aniversários sentiam-se privilegiados ao me verem bêbado, pois era raro. Também eu não tinha idade, mas os garotos com quem eu andava tinham a mesma quantidade de anos vividos e nem assim se acanhavam. Bebiam em toda festa, pior que fosse, e alguns aceitavam cair no chão e fotografar. Eu saía sobre alguns corpos de vez em quando. E aquele sábado imaginei que não seria muito diferente. Eu e Rafael dançaríamos, ele beberia e depois... Depois voltaríamos para casa... Pensei... Eu não podia o deixar dirigir bêbado! E encasquetei com algo antes que tudo tivesse começado. Como sempre! Parei. Resolvi ignorar as preocupações. E consegui.
O lugar onde fomos era totalmente diferente de todos que já teria ido. Começava pela entrada. Ali tinham muitos homens e poucas mulheres. E agora tinham mais dois garotos. Havia uma fila que num instante sumiu. Pagamos, fomos revistados e já ouvíamos um som forte vindo de dentro. Passamos por um longo corredor escuro. A música cada vez mais alta, penetrava em minha mente e me fazia acelerar os passos. Foi quando percebi uma boate gigante com luzes ofuscantes e muita gente dançando, alguns acanhados nos cantos, outros no meio da pista. Alguns se destacando sobre lugares mais altos, outros em camarotes. Quase todos bebiam e sorriam. Conosco não poderia ser diferente. Eu já estava acostumado com este tipo de lugar. A diferença é que ali tanto mulheres beijavam homens, como homens também se beijavam. Isso quando mulheres não beijavam mulheres, quando mais pareciam garotos, com bonés e calças largas. E descobri que aquele lugar fora reservado para todos. Ali não havia preconceito algum e antes que eu começasse achar que tudo não se passava de um sonho, decidi aproveitar de uma vez a noite.

sábado, 1 de agosto de 2009


Tomei banho e fui direto para minha cama. Minha mãe perguntou se eu queria comer e disse ter feito um risoto delicioso. Respondi que estava sem fome e que já havia comido fora. Nada mais que pipocas desceram até meu estômago desde o almoço. Tudo bem que eu havia almoçado lá pelas três da tarde. Deitei e comecei a chorar. Nunca chorei tanto em uma única noite. Não fiz barulho, apenas encharquei meu rosto com o líquido que saía dos meus olhos sem parecer ter fim. Comecei a obter um raciocínio diferente sobre a vida. Por que preferi passar a noite sozinho, chorando, que passá-la com Rafael, tendo os melhores prazeres prometidos por ele? A resposta era o medo. Eu sentia medo de tudo aquilo que precisasse fazer. Imaginei pessoas descobrindo que fiquei com um rapaz, me chamando de veado, minha mãe me expulsando de casa e eu depois de tudo isso continuando a não conseguir ficar com garotas porque tinha um sentimento totalmente diferente ao estar com um garoto, algo inexplicável, como quando estava de férias e pude visitar o parque de diversões que sempre sonhei em estar. A grande diferença era que em parques de diversão a gente vai com o único intuito de se divertir, enquanto estar ao lado de um garoto que eu gostasse e que gostasse de mim era se sentir muito mais que alegre, mas feliz, completo, sem a necessidade de precisar de algo a mais para viver. E a grande semelhança entre um e outro, era o medo que se sentia antes de entrar em algo novo, como algum brinquedo radical, no qual nunca estivera entrado. Lembro-me da primeira vez que andei em uma roda-gigante. Enquanto eu e meus pais esperávamos na fila, eu senti medo, muito medo. Comecei a imaginar coisas ruins acontecerem e percebi que ela era muito maior de perto e que eu poderia não gostar de estar lá, embora uma vez dentro não pudesse mais sair. E atônito, comecei a me desesperar, o coração bateu mais forte e senti vontade de sair correndo, ir para casa, deitar. Da mesma forma que estava deitado naquele momento, e quem sabe chorando e pensando por que preferi ficar deitado, sozinho, chorando, que estar na roda-gigante me divertindo com meus pais, pessoas que mais amei até hoje. Lembrei-me que já fora mais corajoso. Eu não corri e nem desisti de enfrentar aquela roda imensa e que balançava com o vento do início de outono. Enfrentei com unhas e dentes e sem querer demonstrar meus sentimentos aos meus pais, que perceberam mesmo assim minha preocupação e me acalmaram, oferecendo algodão-doce. Foi uma das noites mais felizes da minha vida. Diverti-me muito mais que pudesse imaginar e não senti medo nenhum, além de estar com as pessoas que significavam tudo para mim naquele momento. E, agora, depois de grande e com pentelhos, tive medo de encarar meus novos medos. Meus medos de adolescente.
Mudando o foco do meu raciocínio, me imaginei uma pessoa forte, corajosa. Eu havia sim, naquela noite enfrentado um de meus medos. Talvez eu não me sentisse seguro o suficiente para enfrentar todos os meus medos de uma só vez, mas pelo menos tudo que fiz no cinema, no carro, eu nunca imaginei que teria coragem de fazer, e se fiz era motivo para me sentir orgulhoso de mim mesmo. Eu havia superado algo, e outro dia superaria outras coisas.

sexta-feira, 31 de julho de 2009


Rafael morava com os pais. Beny o conhecia desde pequeno. Brincavam de carrinho, esconde-esconde, pega-pega e outras brincadeiras que as crianças da mesma época brincavam. E nunca se cansavam. Eu mesmo nunca me cansaria de correr de um lado para o outro até que o sono me pegasse de jeito e me derrubasse numa cama. A mamãe chegava no portão e gritava para que todos ouvissem. Hora do almoço. Hora do café. Hora de ir para cama. Eu odiava todas essas horas, por ter de deixar de lado toda a diversão, mas gostava de almoçar, de tomar café, de dormir, vai entender. Éramos crianças lindas como a maioria das crianças são. Engraçadinhas, bonitinhas, sapequinhas. E todas elas cresceram. Rafael também cresceu como todas as outras, e além de crescer com o passar dos anos, tornou-se um garoto atraente, bonito e sim, bastante sapeca.
Rafael era enorme. Tinha quase um metro e noventa de altura. Seu corpo era quase atlético, possuía curvas que em certos momentos eram irresistíveis. Seus olhos eram verdes e sua pele bem clara. Cabelos castanhos, porém bem claros também. Tudo nele era claro. Bem, se era realmente tudo, eu não tinha certeza, mas desconfiava.
- Rafa eu não posso ir para tua casa.
- Por que você não pode?
- Primeiro que eu não avisei minha mãe, segundo que a gente se conheceu pessoalmente hoje. Pelo menos como duas pessoas que se gostam, foi a primeira.
- Como assim? Então quer dizer que só porque nós os conhecemos hoje, você vai ficar me evitando? – Gritava.
- Eu não estou te evitando, muito pelo contrário, o que mais quero é ficar contigo, mas tudo tem seu tempo. Por que tu achas que eu devo ir para tua casa hoje?
- Kelvin nós ficamos hoje, foi tão bom, não acredito que você não gostou.
- Não, tu estás entendendo errado. Eu gostei sim.
- Então por que não quer ir para a cama comigo?
- Cama? Era casa, agora virou cama?
- Eu vou fazer de tudo para você se derreter de prazer.
- Rafa, me escuta.
Ele sentiu que eu estava falando sério e resolveu me dar ouvidos ao invés de falar e gritar sem pausas.
- Eu nunca transei. Nunca havia ficado com outro rapaz. Tu me deste a chance de conhecer isso hoje. Por favor, não faça que essa noite perfeita termine assim. Eu não vou conseguir ir para a cama contigo hoje. Não me sinto preparado e estou nervoso também. Nós continuaremos nos encontrando, a não ser que tu não queiras. E nesses próximos encontros sim, a gente pode se envolver mais. Eu sei que tu vais me entender. E ainda por cima, eu não posso dormir fora hoje, minha mãe já deve estar preocupada.
Rafael ficou pensativo e comovido com o que ouvira. Pensei que ele iria chorar, seus olhos encheram de lágrimas.
- Tudo bem gatinho. Desculpe-me por tudo isso.
Ficamos quietos até chegar ao meu bairro. Pensei em tocar no assunto do acampamento, mas desisti. Quando chegamos pedi para que ele parasse próximo a minha casa, não em frente. Não queria que minha mãe desconfiasse de nada.

quinta-feira, 30 de julho de 2009


O filme mal havia começado, Rafael segurou minha mão. Meu coração disparou. Encostei minha cabeça em seu ombro e continuamos a assistir, ambos morrendo de medo. Minutos depois quando eu estava concentrado no filme, Rafael tomou uma atitude que eu nunca vivera em um cinema antes. Levou sua boca até minha orelha e com mordidinhas leves, sussurrou que sempre quis estar comigo da maneira que estávamos. Era um momento único. Não havia muitas pessoas próximas a nós, mas algumas dessas poucas presentes de vez em quando nos encaravam, com olhar curioso ou invejoso. Num pequeno deslize, Rafael me deu um beijo de cinema, literalmente. Beijo com um ótimo sabor, molhado, macio, demorado, incrível. Fiquei excitado. Sua língua percorria minha boca e procurava novos movimentos. Quanto mais nos beijávamos, mais queríamos nos beijar.
O clima se estendeu mais do que eu esperava. Nosso romance ardia e deslumbrava até mesmo os atores, que naquele momento deixaram de se matar atrás da tela e deram espaço aos créditos finais. Este fora apenas o primeiro filme no qual eu e Rafael não vimos o final.
Todos saíam da sala escura, inclusive nós dois. As pessoas comentavam sobre o filme, nós não. Só nos olhávamos. Os passos lentos e com nenhuma intenção de se apressar. O shopping estava deserto. Fomos ao estacionamento. Demos uma olhada em volta, encontramos o veículo que nos esperava. Eu já o conhecia. Estava da mesma forma como da ultima vez que eu o vira, no acampamento. Rafael desativou o alarme e entramos no carro. Ligou o rádio e pôs um CD. Enquanto ouvíamos algumas músicas românticas, algo muito intencional, ele pegou minha mão esquerda e colocou sobre sua coxa direita. Partimos. O destino eu não sabia. Talvez nem ele.
- Onde estamos indo? – Perguntei curioso.
- Para minha casa.

segunda-feira, 27 de julho de 2009


Sai de casa sorridente e fui o quanto antes ao ponto de ônibus para que não o perdesse. Esperei apenas três ou quatro minutos e ele chegou. Subi a escada, paguei a passagem, passei a catraca e caminhei em direção ao último banco. Sentei-me. O ônibus estava vazio naquele fim de tarde. Eu gostava da janela esquerda. Outro dia um homem deu em cima de mim quando estava no mesmo banco. Fiquei nervoso, mas não deixei de sentar naquele lugar escondido, inseguro, mas meu preferido.
Vinte minutos foram suficientes para que eu chegasse ao shopping. Tive sorte, pois quase não tiveram paradas e era uma linha expressa. Desci. Olhei o movimento. Muita gente passava por ali, muitos com pressa. Estava começando a chover. Corri um pouco e entrei na loja Grande, literalmente grande. Ficava em uma das entradas. Dali em diante, eu mal conseguia caminhar direito. Tremia feito um cachorro em banho frio. Tinha a impressão de estar prestes a conhecer alguém que eu nunca tivesse tido contato antes. Fiquei pensando como eu iria chegar até ele, o que eu diria, aonde iríamos. E nem foi preciso pensar tanto. Rafael me abordou antes que eu planejasse qualquer coisa.
- Oi Kelvin! Encontrei você bem rápido.
- Sim. Estou surpreso, tu chegaste mais cedo que eu. Moro bem mais perto que tu.
- É que vim de carro.
- Claro, tinha me esquecido deste detalhe.
Ele tinha carro, como pude me esquecer? Comecei a ficar nervoso.
- O que iremos fazer?
Tinha que responder alguma coisa. Mas o quê?
- Vamos dar uma volta... Lojas, vitrines, praça de alimentação. Cinema! Isso, vamos ao cinema.
- Minha ideia inicial era exatamente essa. E ainda tenho duas lojas com contas vencidas.
Passeamos bastante e a noite foi caindo. Rafael pagou as contas vencidas e ainda choramingou dizendo que seus cartões de créditos estavam o enforcando. Retruquei dizendo que ele mesmo se enforcara, devia ter mais controle. E nessas idas e vindas a noite foi se debruçando sobre o local. Tetos de vidro permitiam notar tal efeito. O shopping já estava fechando quando resolvemos assistir um filme. Assistimos a um filme aterrorizante. O Costureiro. Terror ao extremo. Eu adorava filmes do gênero e quanto mais fortes mais eu ficava fascinado, e ainda fico, mas eu sabia que para aquele momento não era exatamente este tipo de filme o mais adequado.

domingo, 26 de julho de 2009


Rafinha diz (18:04):


∙ Vamos marcar alguma coisa?


S2 Kelvin S2 diz (18:04):


∙ Vamos sim, vc está a fim de fazer oq?


Rafinha diz (18:04):


∙ Eu queria dar uma volta, pegar um cinema sei lá.


S2 Kelvin S2 diz (18:05):


∙ Hum, legal... Que tal a gente ir ao shopping?
∙ Podemos ir ao cinema e eu já aproveito e pago umas contas.


Rafinha diz (18:05):


∙ Fechou! Agora são 6h. Que horas vc consegue chegar lá?


S2 Kelvin S2 diz (18:06):


∙ Acho que às 7h. Qualquer coisa quem chegar primeiro espera ok?
∙ Vou tomar banho.
∙ Qualquer coisa me liga ta?
∙ Bjos!


Rafinha diz (18:06):


∙ Beijos


Observação do autor – O diálogo anterior representa uma conversa via internet e contém alguns apoios: “S2” simboliza um coração e faz parte do apelido utilizado por Kelvin na internet; “vc” quer dizer “você”; “oq” quer dizer “o quê”; “ok” quer dizer “tudo bem”; e “bjos” quer dizer “beijos”.


Até mesmo meu telefone celular ele já tinha. Também me pediu on-line. De todas as nossas conversas, resolvi reservar apenas essa anterior que foi a mais marcante. Bastaram dois minutos para que minha vida tomasse um rumo diferente de todos que haveria tomado. Confesso que fiquei com medo, mas eu estava decidido a encará-lo. Se não fosse naquele domingo, seria qualquer outro dia. Talvez não fosse com ele, mas seria com qualquer outro. E com ele eu me sentia mais seguro. Tomei um banho e me arrumei. Caprichei bastante no vestuário, usei meu perfume favorito. Fiz tudo rapidamente. Dezoito e trinta peguei o ônibus que parava no lugar exato do encontro. Eu estava me sentindo muito feliz.

sábado, 25 de julho de 2009


Eu resolvi me levantar e entrar no mar. Deixei bem claro que só estaria fazendo isso pelo comentário do Rafael. Mentira. Eu sempre fui apaixonado pelo mar. Desde pequeno, sempre fiquei de molho até os pés e as mãos ficarem murchos, ou mais. Meus pais ficavam na areia tomando conta de mim, sempre apavorados. Mas, além de gostar do mar, agora eu estava sendo convidado para entrar nele e por ninguém menos que Rafael. O garoto que dormiu comigo. Fiz de conta que seria um sacrifício e que eu o considerava de tal forma a aceitar o seu pedido tão submissamente. Rafael sorriu. Beny não sorriu. Susan nos chamou de frescos e por isso jogamos areia nela.
- Seus palhaços! Agora eu serei obrigada a me banhar também!
- Essa foi a nossa intenção querida. – Comenta Beny com ar de deboche.
E todos correram ao mar.

Deixando de lado toda aventura que passamos durante o feriado de ano novo, posso dizer que aquele novo rapaz que aparecera em minha vida fez toda diferença para que eu pudesse ter certeza do que eu era e o que sentia. Podia não saber se sonhei aquela noite ou não, mas sabia que Rafael gostava muito de mim, mais do que eu imaginava. E isso sim era real.
Rafael me encontrou na internet e nos conhecemos bastante. Tivemos várias conversas on-line. Numa dessas conversas que tivemos, ele me questionou sobre sexualidade e decidi que não mentiria para ele. Numa das perguntas, respondi que era homossexual. Não precisei perguntar se ele era homossexual também. Rafael, depois de algumas indiretas, me fez um convite, onde tudo ficara esclarecido.

sexta-feira, 24 de julho de 2009


Bebemos achocolatado e comemos pão. Eu não conseguia desviar os olhares para outro lugar que não fosse os olhos de Rafael. Rafael tentava disfarçar e poucas vezes olhava para mim. Susan e Beny pareciam não perceber.
- Está tarde, vamos à praia. – Gritou Susan.
Acordei. Olhei para o lado, Rafael dormia. Eu estava sonhando. E os beijos? Os abraços? Tudo era sonho? Fiquei assustado e sem acreditar no que estava acontecendo. O achocolatado, o pão, o convite à praia, era tudo tão real. Como eu faria para saber se realmente ele havia me pedido um abraço? Quando acordei, inclusive, meu braço não estava sobre o dele. Fiquei extremamente triste. Comecei a chorar. Depois de algum tempo, voltei a dormir. Acordei mais umas duas ou três vezes até o dia amanhecer. Acordamos aos berros de Beny.
- Está tarde, vamos à praia!
Minha perplexibilidade aumentou ainda mais quando percebi que Beny havia dito a mesma frase que Susan no meu sonho. Isto não podia estar acontecendo. Seria possível haver tanta coincidência? Sim, pior que sim.
Fomos à praia. Era tão próxima ao acampamento que poderíamos ir a qualquer momento do dia e voltarmos sem nos preocuparmos com as horas. E não nos preocupamos mesmo. Chegamos à areia, estava quente. Era quase insuportável ficar sobre ela descalço. Estendemos nossas toalhas e passamos protetores solares, que aquela altura já não adiantaria muito, deveríamos ter passado minutos antes. Susan deitou sobre sua toalha e fazia questão de se bronzear a qualquer custo. Beny ficou em pé olhando para o mar por um tempo enquanto esperava que alguém tomasse a iniciativa de dar um bom mergulho no qual ele teria muito interesse em acompanhar. Esperou bastante tempo e ficou impaciente ao ponto de exigir que alguém escolhesse nadar um pouco. Olhou para Rafael e disse que vir à praia sem entrar na água não havia graça e que ele deveria ir ao menos molhar os pés. Rafael não gostou da forma como Beny havia montado a frase. Respondeu que só mergulharia se eu entrasse e mergulhasse também. Fiquei sem reação. Senti que meus olhos brilhavam e não consegui esconder meu rosto demonstrando felicidade. Eu estava começando a perceber que meu sonho não era tão irreal assim e infelizmente não podia comentar nada, mesmo que tudo não passasse de apenas uma imaginação noturna.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

- Kelvin... Você pode me abraçar?
Momento perplexo com cinco segundos de duração. Rafael estaria brincando comigo? Eu estaria sonhando? Seria alguma armação?
- Por favor!
- Tu tens certeza Rafael?
- Sim... Está tudo silencioso, escuro... Você não está com medo?
- Um pouco...
- Então me abraça para que eu me sinta mais seguro.
Aproximei-me dele. Antes eu estava longe demais. Fiquei tão próximo que senti meu peito encostar suas costas. Aquilo parecia um sonho. Coloquei meu braço esquerdo sobre ele e acariciei sua barriga. Encostei meu queixo em sua nuca e tentei sentir seu cheiro. Tudo estava sendo muito perfeito. Dormimos assim.
O dia apareceu e por incrível que pareça continuávamos na mesma posição. Rafael olhou para mim e desejou bom dia. Respondi o mesmo a ele. Dei-lhe um beijo inesquecível. Beijo molhado, de língua, de novela. Eu não conseguia mais parar, mas ele interrompeu.
- Vamos procurar um lugar para tomar café?
- Nada disso. Trouxemos muitas coisas gostosas para comer e faremos aqui mesmo. Isto é um acampamento e não um hotel.
- Tudo bem...
Rafael não comentava nada sobre o que tinha acontecido. Meu medo era que ele colocasse a culpa na bebida e resolvi me calar para ver até onde iria o silêncio dele também.

- Parece mentira que finalmente iremos dormir juntos – Disse Susan para Beny, com orgulho.
Beny nada comentou, apenas sorriu. Eu olhei para Rafael.
- E eu que te conheci hoje, já estou indo pra cama contigo! – Comentei, fazendo todos darem gargalhadas pensando em malícias.
Deitamos. A barraca era espaçosa. Meu corpo implorava por aquele momento. Eu estava muito cansado. Também sabia que estava bêbado e isso me tornava ainda mais exausto. Nunca tinha tido uma noite como aquela. Sentia-me livre e agora dormiria pela primeira vez com um rapaz. Era um amigo ou nem isso ainda, mas era a primeira vez.
Rafael se cobriu com o lençol dele. Eu me cobri com o meu cobertor. Estava frio. Rafael pediu para se cobrir também com meu cobertor. Deixei. Depois virou-se e fechou os olhos. Eu me virei para o mesmo lado que ele. Eu podia ver as suas costas largas e aquilo me atraía. Um garoto de dezoito anos, bonito, simpático e atencioso. Eu tinha meus meros dezesseis, mas me considerava um adulto. Tirando as bebidas que meus pais nem imaginavam que desciam por minha garganta, todos, inclusive eles, me tratavam como alguém com mais idade. Graças a Deus sempre tive minha cabeça no lugar e detestava ser tratado como criança.
Foi quando no meio de todo silêncio noturno, onde só se ouviam os grilos e o barulho do mar, Rafael me pediu algo inesperado me deixando completamente pasmo.

quarta-feira, 22 de julho de 2009


Escolhemos o melhor local. Havia umas duas ou três barracas no acampamento. Resolvemos montar as nossas perto das outras que já estavam ali. Deixamos o carro estacionado entre as nossas duas barracas que por sinal demoraram a serem armadas. Talvez não fossem as barracas mais modernas ou nós não fôssemos as pessoas mais experientes para tal situação. Enfim, pudemos ver nossa moradia, de dois dias apenas, armada e firme para suportar vento ou chuva forte.
A noite chegou rapidamente enquanto comíamos alguns salgadinhos e bebíamos sidra. Nossa conversa era variada. Começávamos falando sobre praias, quando percebíamos, o assunto era balada. No final, todo papo terminava em sexo, mas era um tema rápido, logo retornávamos ao tópico anterior. O ano foi se aproximando e nós continuávamos bebendo. Meia-noite. Vimos os fogos, estavam brilhantemente lindos, rimos bastante, bebemos ainda mais e jogamos canastra. A segunda partida já era impossível, mal conseguíamos ver as cartas direito. Minuto a minuto estava sendo aproveitado da melhor maneira, sem os pais, sem cobranças, sem nada para interferir a bagunça formada por apenas quatro adolescentes que valiam por doze. Alguns fogos ainda explodiam, vinham da praia. E as horas passavam-se rapidamente. Era tarde. Os vizinhos já dormiam ou tentavam dormir. Havia uma barraca que até televisão tinha e estava ligada. Na próxima vez não podíamos esquecer-nos de trazer uma também. Televisão é essencial depois que se acostuma com ela.
Quatro e meia. Susan e Beny foram deitar na barraca deles. Eu e Rafael fomos também deitar na nossa.

terça-feira, 21 de julho de 2009


Véspera de ano novo. Os últimos dias tinham passado rápido. Eu não havia mais falado com Susan, tampouco com Beny. Eu queria assistir os fogos na virada e para isso eu deveria ir até o centro da cidade, pois ali em nosso bairro não tinham muitos atrativos nessa data. Susan ligou para o meu celular. Atendi. Ela pediu para que eu me arrumasse e perguntei aonde ela queria que fôssemos. Susan me contou que iríamos acampar e pediu também que eu levasse uma mochila grande com muitas coisas que possivelmente nós precisaríamos naquela noite. Perguntei quem iria. Susan respondeu que iríamos eu, ela, Beny e o melhor amigo dele, Rafael. Pensei bastante e respondi que a ideia era boa. Peguei a maior mochila que eu tinha. Coloquei comida, bebida, roupas e levei um travesseiro nas mãos. Susan e Beny me esperavam na casa dela. Quando cheguei lá, fomos até a casa de Rafael que por ser maior de idade tinha carro e nos levaria até o acampamento que era longe, esquecido e sinistro. Levamos umas duas horas para chegar ao destino e eu conhecia muito pouco o local. O nome da cidade era Planalto, vizinha de Destilândia. Seu nome não era respeitado. Eu não vi planalto algum, apenas planície. Havia uma bela praia próxima cujo nome não lembro mais, acho que a chamavam de Praia Gelada. E realmente, era verão, mas lá fazia frio.

segunda-feira, 20 de julho de 2009


- Paula eu não quero mais ficar contigo.
Curto e grosso como as pessoas costumam dizer.
- Desculpe, mas estou apaixonado por outra pessoa.
Inventei. Não quis dizer que não estava gostando. Qualquer garota se sentiria muito mal ouvindo isso. O que eu disse também não a agradou.
- Tu és muito especial, adorei te conhecer.
Choro. Ela gostava de mim além do que eu podia imaginar. Agora sim fiz o que eu sempre temia.
- Susan não quero que tu continues me ajudando.
- Por quê? Você não gostou da Paula? Duvido! Garanto que sim! Se você enjoou dela ou a achou um pouco infantil, tudo bem, apresento a você outras amigas.
- Susan não! Eu não gosto disso...
Susan ficou surpresa com minha reação.
- Entendi... Você gosta de escolher quem você quer. Claro! Como fui burra! Então você escolhe uma garota que lhe interesse, aqui do bairro ou do colégio e eu tento aproximar vocês porque se depender de você, nunca terá alguém.
- Eu repito. Eu não gosto disso...
- Você não gosta de que Kelvin!
- De garotas.
E assim começou toda a história. O medo, o ciúme. Susan não queria perder Beny para mim, mas ele não gostando de garotos não haveria perigo.

domingo, 19 de julho de 2009


Susan fazia realmente questão de me ajudar. Um dia fomos dar uma volta e Paula estava junto. Fomos jogar conversa fora na praça central da cidade. Aquela noite estava movimentada. Os jovens frequentavam muito aquele lugar, era lugar de paquera. Susan nem conhecia Beny ainda, namorava Marcos. Propositalmente, quando o avistou foi correndo aos seus braços justamente com a intenção de servir como cupido. Ficamos sós olhando os dois namorando, era uma bela cena. Susan e Marcos lá. Eu e Paula aqui. Paula era uma garota tímida como eu, então realmente para que ficássemos juntos, só com um esquema muito bom mesmo. Paula me perguntou se tudo o que Susan havia contado sobre mim era verdade e respondi que sim. Fui obrigado, eu não poderia falar mal de mim mesmo. Comecei a perceber como o esquema armado pela minha amiga estava funcionando. O clima me obrigou a beijá-la. Senti-me mal, não existia atração. A noite foi boa, meu primeiro beijo. Foi um beijo bom, mas sem química alguma. Isto se repetiu algumas vezes. A noite passou. Outros dias vieram. Continuamos ficando. Quando nos encontrávamos, conversávamos e depois ficávamos. Ficamos mais cinco vezes depois da primeira. Senti-me mal em todas. Eu poderia contar mais detalhes sobre meus sentimentos, mas não saberia defini-los tão bem. Apenas sei que não eram bons. Então, tudo isso me obrigou a fazer o que temia.

domingo, 5 de julho de 2009


- Eu sei que você é um pouco tímido, mas deixe comigo! Eu vou ajudar você. Conhece a Paula ali da outra quadra?
- Paula? Não me lembro dela...
- Sim, Paula! Uma morena, com o cabelo bem comprido, parece uma índia.
- Sim, agora sei quem ela é. Que tem ela?
- Ela sempre pergunta por você e eu sempre falo muito bem de ti.
- Que tu dizes sobre mim?
- Digo que você está solteiro e que é um amor de pessoa, pena que é meu primo.
Paula estudava na sala de Susan e era uma garota muito bonita e sensual. Eu a conhecia apenas de vista. Depois que Susan me dissera tal notícia eu tive várias oportunidades de falar com ela, mas preferi me afastar, pois sabia que Paula tinha segundas intenções comigo e eu jamais queria algum relacionamento com ela. Eu poderia arriscar e tentar enganar as pessoas por um tempo para que não me questionassem mais e nem pensassem verdades sobre mim, mas decidi não fazê-la. Fiquei quieto em meu canto deixando que as coisas acontecessem sozinhas, sem interferência minha. Eu estava em uma situação ruim e dependendo da minha decisão eu enganaria a mim mesmo.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009


Para mim era muito difícil mentir. No fundo, ela sabia que eu gostava dele. Susan era ciumenta demais. Susan sabia meu segredo. Segredo meu para todos os outros que eu conhecia, sem incluí-la. Aconteceu quando ela e Tia Gilda vieram morar aqui. Sentados em algumas pedras próximas à praça central da cidade, conversávamos sobre antigas paixões. Eu tentei esconder e consegui por algum tempo, mas aos poucos ela percebeu. Susan sempre foi muito esperta e antenada.
- E qual o nome da sua primeira namorada?
Eu nunca tinha namorado antes. Então eu não precisaria mentir.
- Eu nunca namorei...
Talvez fosse a pior resposta, pois traria novas perguntas após esta. Podia ser também a melhor resposta, pois me pouparia de inventar detalhes.
- Como não? Você é tão gentil, bonito...
Adorei os elogios. Sorte que ela era minha prima. Mesmo que eu fosse gentil e bonito, poderia não ter me apaixonado ainda. Resolvi não retrucar.
- Sou novo ainda para isso.
Realmente eu era novo para namorar, mas todos com a mesma idade já estavam namorando. Era moda. Ela mudou o foco da conversa.
- Prefere loira ou morena?
- Tanto faz.
- O que você acha de mim?
- Tu és bonita.
Simples assim. Contudo que minhas respostas naquele momento eram pura reação.
- Você vai ver... Vou fazer de tudo para encontrar uma garota perfeita, ideal para você namorar.
- Não precisa...
Imaginei que ela queria ser prestativa. Esnobando a ajuda eu estaria me entregando, mas ela não notou isso.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009


- Sim. Ele precisa perceber que já somos crescidos. Já temos idade para namorar e não é mais necessário fingir que somos apenas amigos. Dessa forma conseguirei até mesmo mais liberdade. Minha mãe perceberá que estou me tornando uma mulher, poderei sair, por exemplo.
Aquela resposta sem sentido me deixou ainda mais preocupado. Agora eu podia ter certeza que Susan escondia de mim algo muito importante. Não questionei mais sobre isso porque sabia que ela poderia fugir ainda mais e inventar novas mentiras. Mudei de assunto.
- E sobre minha mãe. Não me contarás nada mesmo?
- De novo? Eu não quero que você continue insistindo nisso. Aliás, agora sou eu que vou te questionar. O que está acontecendo com você e Beny?
- Como assim? Não está acontecendo nada. Estamos nos conhecendo melhor, nos tornando amigos. Beny parece ser uma pessoa tão boa.
- Eu conheço você Kelvin. Você não quer apenas a amizade dele.
- O que tu estás querendo dizer com isso?
- Quero que você saiba que Beny será meu. Apenas meu.
- Eu não acredito que estás com ciúme. Eu não quero ficar com Beny. E mesmo que eu quisesse, tu achas que ele iria me querer?
- Não... Claro que não!
- Então... Qual o problema de sermos amigos?
Pensou na burrice que falara.
- É verdade. Eu estou sendo obsessiva. – Respondeu Susan, ainda nervosa.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009


- Susan eu sei que eu às vezes te incomodo, mas gostaria que tu me contasses o que passa em tua cabeça.
- Você não me incomoda. Eu gosto de você. Ninguém se preocupa comigo assim como você, por que eu iria reclamar?
Susan sempre com perguntas que me deixavam sem saída. Eu poderia respondê-la que muitas pessoas gostam de se isolar e que preferem não compartilhar seus problemas com os outros, mas dizendo isso eu estaria me classificando como uma pessoa qualquer que apareceu na vida dela a partir de sua adolescência e não como o melhor amigo, o ombro onde ela pode chorar muitas vezes e quantas ainda fosse precisar. Eu poderia encontrar diversas pessoas para ter uma amizade e sei que poucas delas estariam dispostas a me ouvir toda vez que precisasse, pois eu não precisava pouco, ao contrário, adorava conversar. Para mim, o diálogo é essencial e Susan sabia que eu pensava assim. Até mesmo ela me disse certa vez que pensava da mesma maneira, mas se contradisse com a reação inesperada por todos na tarde passada. Então, se ela não quis levar um papo sério com ele, quem sabe quisesse comigo.
- Então me conte o que tu sentes pelo Beny.
Ela ficou pensativa. A mesma pergunta já feita por mim ao Beny anteriormente traria resposta ao sentimento dele por ela.
- Eu quero namorar ele. Quero mostrar a ele que podemos ser felizes juntos. Ele se recusa a tentar. Eu já havia tocado nesse assunto antes, mas ele se fez de desentendido. Você acha que a minha atitude hoje a tarde foi errada? Eu precisava arriscar.
- Eu não acho errada, mas achei um pouco estranha. Parecia que não havia comunicação entre vocês há séculos. Tu pegaste Beny de surpresa.
- Fiz aquilo porque assim é mais fácil, mais rápido. Todos já iriam entender o que rolava conosco. Eu tenho que mostrar ao Beny que entre nós pode ter algo maior. Ele pensa que nós iremos enganar a todos por quanto tempo?
- Enganar?
Fiquei sem entender mais nada. Por que Susan e Beny estariam querendo enganar alguém? O que havia de mal dois colegas de escola que se conhecem e se apaixonam começarem a namorar? Olhei para Susan e dessa vez não fiz pergunta alguma. Meu olhar já pedia uma explicação. Susan ficou tensa.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009


- Mãe... Tu já pensaste sobre aquilo?
- Não sei o que estás falando.
- Eu falo daquela resposta que tu ficaste me devendo outro dia.
- Eu não fiquei devendo resposta alguma.
- Tudo bem... Se tu não queres me contar, eu descobrirei mesmo assim. E será pior, podes ter certeza.
- Não te preocupes. Quando souberes, seja por mim ou por outra pessoa, estarás preparado.
- Eu não entendo mãe, não entendo...
Senti-me muito mal. Mamãe não confiava em mim. Fui para o meu quarto. Deitei. Chorei. Tentei dormi, mas não consegui. Confesso que cochilei um pouco, mas logo após acordava. Voltei a me perguntar por que eu merecia tanta omissão. Mamãe e Susan escondiam algo de mim e eu precisava descobrir. Não podia imaginar qual omissão teria mais peso, qual me chocaria mais. Foi quando percebi que o dia já estava chegando ao fim e resolvi ir até a casa de Susan. Levantei-me, fui ao banheiro, lavei o rosto, respirei fundo e sai. Alguns passos, creio que aproximadamente trinta, foram suficientes para que eu chegasse lá. Eu precisava conversar um pouco mais e Susan depois de ter corrido para casa daquele jeito também precisava, ou não.
Susan estava deitada na cama de seu quarto, assim como eu minutos antes. Quem me levou até lá foi tia Gilda que por sua vez estava séria, mas demonstrava que não havia conversado com Susan ainda pela expressão desinformada que seu rosto trazia. Da porta, perguntei se podíamos conversar. Susan respondeu que sim e eu me aproximei. Sentei-me à beira da cama. Percebi que Susan estava realmente triste. Eu a conhecia muito bem. Não era falsidade. Olhando de perto se podia perceber que Susan, assim como mamãe, escondia de mim alguma coisa importante. Eu notava a diferença. Mamãe demonstrava medo, Susan demonstrava dúvida. Uma ou outra teria de se abrir comigo. Eu estava ficando louco. Então, tentei fazer com que algumas palavras saíssem de sua boca.